Aos meus irmãos
Na infância havia a umidade leve da inocência deslocada nos atos e pensamentos de crianças que brigavam e brincavam em intensidade pareada. E aquilo era uma alegria. Mesmo as brigas. Até quando o irmão mais velho atracava no pescoço do mais novo e a mais nova grudava os dedos no emaranhado dos cabelos da mais velha. E os gritos saiam pela casa. Na adolescência a guerra se instaurou por motivos distintos: já não era mais o pacote de bolacha de morango o motivo da discórdia – agora era a posse do carro. Não se pegavam aos tapas, isso não, porém berravam para fazer prevalecer o domínio sob os objetos de disputa. Nessa época o mais velho não usava mais shorts de time de futebol: agora eram as calças boca de sino. A mais nova, com menos sardas, exibia os cabelos curtos. O mais novo, os caracóis longos. A mais velha continuava com os cabelos embaraçados.
O que está na memória não se nomeia. Não se deve chamar pelo nome aquilo que um dia foi. E assim a pessoa sente em vida que é somente na distração que aquela música que queria tanto ouvir toca na rádio numa tarde inesperada no trânsito, e é só na mais pura desatenção que o amor te cruza olhares numa banca de esquina às seis da tarde, e é no minuto esquecido que você encontra a surpresa de uma carta num mês de maio qualquer, como também é na distração da caminhada rápida por avenidas largas que a pessoa se olha no espelho e percebe que o rosto envelheceu, e é somente e tão somente na validade da distração que se entende que nós quatro éramos um.

(Portinari - Circo, 1932)