A veia no pulso

Na floresta do alheamento

Aos meus irmãos

Na infância havia a umidade leve da inocência deslocada nos atos e pensamentos de crianças que brigavam e brincavam em intensidade pareada. E aquilo era uma alegria. Mesmo as brigas. Até quando o irmão mais velho atracava no pescoço do mais novo e a mais nova grudava os dedos no emaranhado dos cabelos da mais velha. E os gritos saiam pela casa. Na adolescência a guerra se instaurou por motivos distintos: já não era mais o pacote de bolacha de morango o motivo da discórdia – agora era a posse do carro. Não se pegavam aos tapas, isso não, porém berravam para fazer prevalecer o domínio sob os objetos de disputa. Nessa época o mais velho não usava mais shorts de time de futebol: agora eram as calças boca de sino. A mais nova, com menos sardas, exibia os cabelos curtos. O mais novo, os caracóis longos. A mais velha continuava com os cabelos embaraçados.

O que está na memória não se nomeia. Não se deve chamar pelo nome aquilo que um dia foi. E assim a pessoa sente em vida que é somente na distração que aquela música que queria tanto ouvir toca na rádio numa tarde inesperada no trânsito, e é só na mais pura desatenção que o amor te cruza olhares numa banca de esquina às seis da tarde, e é no minuto esquecido que você encontra a surpresa de uma carta num mês de maio qualquer, como também é na distração da caminhada rápida por avenidas largas que a pessoa se olha no espelho e percebe que o rosto envelheceu, e é somente e tão somente na validade da distração que se entende que nós quatro éramos um.


(Portinari - Circo, 1932)

Publicado em 17 de abril de 2008 às 14:25 por gh

Comentários

    • Lindo...... lindo ... lindo......

      Bjo pra Mar que guarda essa sensibilidade e de vez em quando faz isso, a gente se emociona...
      Bjo pro Ri, empresário que cuidará do meu futuro... por isso sou tranquilo..... hahahahaha.....
      Bjo pra Ju que vai ser a linda irmã arquiteta da minha casa na praia, paga lógico pelo Ri....

      Amo vc´s....

      Lu.
    • por Luciano Aires.
    • 17.Abr.2008 às 11:16 - Permalink - Reportar
    Luciano Aires.
    • É...a Mar faz isso mesmo: ela emociona a gente! Eu amo o que ela escreve, pois é tudo muito profundo!

      Mar...como te disse antes, eu amo quando vc escreve da gente, da nossa infância, da família,etc. porque seus poemas eternizam momentos que passaram em nossas vidas dos quais as vezes nos esquecemos. Seus textos servem para manter a nossa história viva!!!! Você tem essa missão: continuar passando para o papel tudo o que juntos vivemos, seja ontem ou seja hoje! Um dia vou juntar tudo e fazer um livro de recordações! Pode esperar!

      Lu, vc está certo...hahahaha...vou projetar uma casa pra vc financiada pelo Ri...se bem que acredito que no final das contas, vc é que será o cara da grana...$$$$...pode crer! Tô vendo aí uma música sua estourando na parada e aí pronto: fica famoso e rico :)

      Beijo meus irmãos e irmã que amo tanto!
    • por Ju
    • 17.Abr.2008 às 12:32 - Permalink - Reportar
    Ju
    • Bueno..!! Que comentar de tudo isso..
      Minha irma é foda..!!
      The next Clarice Lispector..
      Eu, que sou o mais desnaturado de todos, que sempre fujo dos churrascos no domingo, me emociono quando leio essas coisas..
      E o mais importante de tudo isso pra mim, é que no fundo faço parte de uma família, ou melhor, de uma seita onde poucas pessoas no mundo um dia viverao essa experiencia..
      Morro de saudades de vcs meus irmaos queridos..
      Um beijo grande..
    • por Ricardo
    • 17.Abr.2008 às 13:44 - Permalink - Reportar
    Ricardo
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