A veia no pulso

Alguma coisa

Y la canción del agua
es una cosa eterna.

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Publicado em 02 de novembro de 2007 às 13:24 por gh

Romanceiro gitano

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Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

Dispensa comentários Federicossssss...

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Publicado em 17 de outubro de 2007 às 10:37 por gh

Ach-hadu an Iá iláha il-la Allah

Amo Virginia Woolf. Ela é muito densa, fala o que precisa ser falado dentro.
Ela grita em mim.
E eu agradeço.
Agora trechos de “The Waves”. Vou usar a tradução da Lya Luft porque ela fez um trabalho belíssimo. Essa é sem dúvidas uma das melhores traduções que já li.
Os trechos são pra você Ju.
Opyorum.

No correr de minha vida [...] farei o gigantesco amálgama das discrepâncias tão cruelmente óbvias em mim. Conseguirei isso à força de tanto sofrer. Vou bater. Vou entrar.


(Capadócia)

Sou as estações , penso às vezes, janeiro, maio, novembro, a lama, a neblina, a madrugada. Não posso agitar-me nem esvoaçar docemente, nem misturar-me com outras pessoas. Mas agora, recostada neste portão até o ferro deixar marcas nos meus braços, sinto o peso que se formou dentro de mim.


(Chá turco)

E como, sob certo aspecto, sou iludido, porque a pessoa está sempre mudando, e o desejo não, e pela manhã não sei com quem me sentarei à noite, nunca estagno; ergo-me de minhas piores desgraças, volto, transformo-me. Pedregulhos ricocheteiam na armadura de meu corpo musculoso e distendido. Envelhecerei nessa busca.


(Yeni Camii)

Corre ouro em nossas veias. Um, dois; um, dois; o coração pulsa quieto, confiante, em um transe de bem-estar, um êxtase de bondade; e vejam – as partes mais longínquas da Terra – sombras pálidas no mais longínquo horizonte, como a Índia, por exemplo, estão ao nosso alcance. O mundo que fora encolhido, arredonda-se; províncias remotas são retiradas das trevas; vemos estradas lamacentas, florestas intrincadas, bandos de homem e o abutre que se alimenta de uma carcaça inchada, como se estivessem dentro do nosso meio, como parte da nossa esplêndida e altiva província, pois, cavalgando sozinha uma égua mordida de pulgas, Percival avança por uma trilha solitária, tem sua tenda presa entre árvores desoladas, diante de montanhas enormes.


(Hagia sofia)

A reserva comum de experiência é muito funda. Temos entre nós bandos de crianças de dois sexos, que educamos, que visitamos na escola com sarampo e que criamos para herdarem nossas casas. De um modo ou de outro, fazemos este dia, esta sexta-feira, alguns indo aos tribunais; outros à cidade; outros ao berçário; outros marchando em filas de quatro. Um milhão de mãos bordam, erguem caixas com tijolos. A atividade é interminável. E amanhã recomeça; amanhã faremos o sábado. Alguns pegarão o trem para a França; outros, o navio para a Índia. Alguns nunca voltarão a esta sala. Um pode morrer esta noite. Outro gerará um filho. De nós brotará toda espécie de construção, política, felicidade, poema, filho, fábrica. A vida chega; a vida se vai; nós fazemos a vida.


(Capadócia)

Mas quando você chega, tudo muda. As xícaras e pires mudaram quando você entrou esta manhã. Não pode haver dúvida, pensei, afastando o jornal, de que nossas insignificantes vidas, disformes como são, assumem esplendor e significado apenas aos olhos do amor.


(Ulus - Ankara)

Cada visão é um arabesco traçado de súbito para ilustrar um capricho ou a maravilha de um momento de intimidade. A neve, o cano estourado, a banheira de folha-de-flandres, os gansos chineses – são sinais lançados ao alto, onde, olhando para trás, leio a característica de cada amor; como cada um era diferente.

Publicado em 08 de outubro de 2007 às 10:14 por gh

Araras versáteis (Hilda, gosto tanto do nome desse teu poema!)

Sempre achei que para escrever bonito, que para emocionar não é preciso verborragia, nem adjetivos e adjetivos e adjetivos e ..., nem palavras pomposas tampouco palavrões, palavras-comuns, termos imbecilizantes desse mundo mudérrrnu.
Texto bonito é texto seco.
Seco como casa caiada.
Texto bonito é substantivo puro.
Substantivo é o que faz do texto vivo.
Substantivo é rei.

E agora uma música do Cartola que não me canso de ouvir. É tão simples, mas tão linda!

A cor da esperança

Amanhã,
A tristeza vai transformar-se em alegria
E o sol vai brilhar no céu de um novo dia
Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade,
Peito aberto,
Cara ao sol da felicidade.

E no canto de amor assim
Sempre vão surgir em mim novas fantasias.
Sinto vibrando no ar
E sei que não é vã
A cor da esperança
Da esperança no amanhã


(Circo - Portinari)

Publicado em 30 de setembro de 2007 às 20:51 por gh

Tecendo a manhã

1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


(Onde eu estaria feliz - Di Cavalcanti, 1965)

Nunca enjôo desse poema.
Eu também tô sempre tecendo a manhã João.
Obrigada mestre João, obrigada.

Publicado em 27 de setembro de 2007 às 19:25 por gh

MiGAlhAs no chÃo

Las mujeres suspiran
cuando a la tarde miran
la gran fatiga, hecha pasión, del mar:
toda mujer quisiera
en una noche encapotada y fiera
estarse a sola abrazando al mar.

(Eduardo Marquina - "Se pinta el mar")



Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que o oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.
(Clarice - "Água viva")



Foi este o instante: ela transpôs a soleira, me contornando pelo lado como se contornasse um lenho erguido à sua frente, impassível, seco, altamente inflamável; não me mexi, continuei o madeiro tenso, sentindo contudo seus passos dementes atrás de mim, adivinhando uma pasta escura turvando seus olhos, mas a sombra indecisa foi aos poucos descrevendo movimentos desenvoltos, perdendo-se logo no túnel do corredor: fechei a porta, tinha puxado a linha, sabendo que ela, em algum lugar da casa, imóvel, de asas arriadas, se encontraria esmagada sob o peso de um destino forte; ali mesmo, junto da porta, tirei sapatos e meias, e sentindo meus pés descalços na umidade do assoalho sento também meu corpo de repente obsceno, surgiu, virulento, um osso da minha carne, eu tinha as esporas nos meus calcanhares, que crista mais sangüínea, que paixão desassombrada, que espasmos pressupostos! afundei no corredor pisando numa passadeira de perigo, um tremor benigno me sacudia inteiro, mas nenhum ruído nos meus passos, nenhum estilhaço, nenhum gemido no assoalho ...
(Raduan Nassar - "Lavoura arcaica")



São panos estendidos ao sol
Para secar, no quintal de alguma casa;
Grandes lençóis ondulantes
Ao vento que vem e vai,
Ao vento que não pára de agitá-los.

(Joaquim Cardoso - "Alucinações em branco")

A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!

(Pedro Nava - "Alcazar")

Publicado em 24 de setembro de 2007 às 14:30 por gh

Penélope, que tece e desfaz a teia ardilosa

Meu fascínio por Bernardo Soares...

Fragmento 12
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. [...] Faço paisagens com o que sinto. [...] Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de uma criança para as outras. [...]
Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. [...]. Crochê das coisas. Intervalo... Nada...


Fragmento 299
Cada vez que viajo, viajo imenso!
[...] ao passar diante de casas, de vilas, de chalés, vou vivendo em mim todas as vidas das criaturas que ali estão. Vivo todas aquelas vidas domésticas ao mesmo tempo. Sou o pai, a mãe, os filhos, os primos, a criada e o primo da criada, ao mesmo tempo e tudo junto, pela arte especial que tenho de sentir ao mesmo (tempo) várias sensações diversas, de viver ao mesmo tempo – e ao mesmo tempo por fora, vendo-as, e por dentro sentindo-as – as vidas de várias criaturas.


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(Vendedor de frutas - Tarsila)

Eu também me desenrolo como uma meada multicolor, como uma teia de aranha que se faz e refaz tantas vezes e tantas outras...
Sou,
inexoravelmente,
octogonal.

Publicado em 21 de setembro de 2007 às 10:36 por gh

La estela de tu perfume

Ahora un sonido.
En el alma una pulsación tanguera.
Y todas las ventanas se abren,
las cortinas volando en una habitación remota,
el pecho lleno de sal y tierra,
como uno que se muere en tarde lejana en el desierto.
¡Ay!, si pudiera resumir mi vida,
sería esa una pregunta que no se hace.
Y todavía mi corazón no se cansa de latir.

PERFUME
(Jorge Drexler; Luciano Supervielle)

Perseguiré los rastris de este afán
como busca el agua a la sed,
la estela de tu perfume.

Me atravesó tu suave vendaval,
rumbo a tu recuerdo seguí,
la senda de tu perfume
del eco de tu perfume.

No hay soledad que aguante el envión
el impulso antiguo y sutil
del eco de tu perfume.

Perseguiré, perseguiré,
la senda de tu perfume.

Me atravesó, tu suave vendaval
rumbo a tu recuerdo seguí.
la senda de tu perfume.

No hay soledad que aguante el envión,
el impulso antiguo, sutil
del eco de tu perfume,
el eco de tu perfume.


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Hoje dedico o blog a Grá. E depois, quando encher as páginas de Clarice, serão a ela também.

E quando eu salpicar nisso daqui margaridas, daí será à Ju.

Obrigada pela tua presença Janis. Você é Rainha.

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Publicado em 19 de setembro de 2007 às 15:57 por gh

Recalcitrada de silêncio

Hoje é dia quente.
O ar está parado, o rosto molhado, tarde nos trópicos.
Janis (a Ávila, a Rainha do Mar) me convidou para começar o blog há dias, mas não deu. Fazer traduções sobre plataformas de petróleo pode ser a ação mais cansativa e "pé no saco" que alguém pode fazer por dinheiro. (Se bem que pior ainda deve ser ficar entregando panfleto na JK...).
Enfim, liberta da chatice da tradução (pelo menos por essa semana), eis que volto a ter um blog.
Ressuscitei "A veia no pulso".
E não poderia começar diferente. Cito G.H.:

Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.

Às vezes o silêncio fala mais do que essa boca cheia de dentes e saliva. O romper do sol contra os gravetos dos eucaliptos lá fora é mais duro do que minha palavra.
Sempre será.
Aquilo que não se diz - é dessa parte pétrea que sou feita.
E o deserto pode ser tão largo...

Publicado em 18 de setembro de 2007 às 16:08 por gh

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