Por que os elefantes precisam caminhar tanto para comer?

Vírgula (António Maria)

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

Esse poema é maravilhoso. Maravilhoso porque eu o tenho como meu. Quem sabe não o escrevi em sonhos? Pra mim o poema tem diálogo com essa imagem de Picasso (Menino com cachimbo, 1905), da fase rosa, que eu adoro...

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Adoro o António Maria. Ele simplesmente escreve.
Poeta é isso: escreve sem querer muita coisa. Deixa a mão correr e respeita o pensamento. Sai correndo atrás do fluxo... Sai correndo como um homem que deseja capturar insetos pequenos e velozes... Sem chance. Não se captura o pensamento: é preciso soltá-lo da boca.


Escrever é sempre um expurgo, ainda que um expurgo às avessas.

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