PoEmAs qUe FaLaM a MiNhA LíNgUa

"A prometida", de Tony Theca (Guiné-Bissau)

Dóli só
Djena sem ninguém
do romance inocente
a tragédia bacilenta

papá homem grande
se meteu
uma vaca
um saco de farinha
um tambor de cana
umas folhas de tabaco

a permuta
a prometida

três
dias
depois
da lua

com fome de amor
boca acre não come
com sede de ternura
garganta seca rejeita água
as lágrimas engrossam
e rolam
no rosto macilento

Djena dezassete chuvas
Djena uma vida por viver
Djena a prometida
Djena mulher de hoje
tem fome
não come
tem sede
não bebe

corpo de mulher
inerte como o silêncio
firme como a recusa
repousa intacta
num sono inviolável


("Pai e filho", de Hugo Delgado - Guiné)

"Ressaca", de Osvaldo Alcântara (Cabo Verde)

Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.

(Cesária Évora, maravilhosa!!!!!! Cesária é Cabo Verde)



"Ausência", de Hélder Muteia (Moçambique)

Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.

Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?

Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?

Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.

Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.


"Meninos e meninas", de Fernando Sylvan (Timor Leste)

Todos já vimos
nos livros, nos jornais,
no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais,
no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de
meninos e meninas
que morreram a defender
a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

"São meus estes rios", de Manuel Lima (Angola)

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.


("Angola", dos jornalistas brazucas Leandro Taques/Júlio Cesar)

"Ilha Nua", de Alda do Espítito Santo (São Tomé e Príncipe)

Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...

("Filó", de Fv - São Tomé) - In: blog Calhau Rolado (muito bom!!!)


"A concha", de Vitorino Nemésio (Açores)

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.


E O SONHO DE QUE UM DIA EU PISAREI EM TODAS ESSAS TERRAS...


 

Eu queria estar em Argel agora...

Hoje dedico o blog à Karen e à Fer, pessoas talentosíssimas que tive a sorte de conhecer. Pessoas não somente inteligentes, sensíveis e abertas às pulsações do mundo, mas acima de tudo pessoas iluminadas.
Pena só a gente não se encontrar com mais constância...

O primeiro poema (lindooooo!!!!!!) e o hai-kai são de autoria da Karen. Roubei do blog dela e somente após publicar vou avisar que roubei! Hehehehehehe! Dando os devidos créditos, obviamente.
As fotos são da Fer. De delicadeza brutal.



Uma voz. Existe sim uma voz que se desmancha por todos os sentidos nesta noite bizarra de luzes. Como em muitas outras situações anteriores rasga assim um pedaço da garganta de alguém que insiste. Que zomba das tardes de silêncio. Essa voz imensa que pára diante do semáforo indeciso. E arde na rua com a imprecisão de um raspão no rosto. Como um corte no ligamento do antebraço. Fina faca de desossar. De barulhos. De verdades que rasgam os tecidos das burcas. De idéias geniais. A voz que se põe diante do jogo. De damas. E o sussurro diante do absurdo. Inerte absurdo. E ecoa um pouco além daqui. Ainda que para ninguém ou para o semáforo surdo. Insiste ainda. Qual voz que reste.(2006)




suposto hai kai de inverno

filete

finíssimo

de luz

bate sol na cama




Blog da Karen: http://karendebertolis.blogspot.com/

Blogs da Fer: http://fermaga.blogspot.com/
http://atelierdefotografia.blogspot.com/

OBSERVAÇÃO: A estalagem das almas , de Karen Debértolis e Fernanda Magalhães (Travessa dos Editores/2006) pode ser pedida pelos e-mails: fermag@sercomtel.com.br ou kd@sercomtel.com.br


 

Por que os elefantes precisam caminhar tanto para comer?

Vírgula (António Maria)

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

Esse poema é maravilhoso. Maravilhoso porque eu o tenho como meu. Quem sabe não o escrevi em sonhos? Pra mim o poema tem diálogo com essa imagem de Picasso (Menino com cachimbo, 1905), da fase rosa, que eu adoro...

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Adoro o António Maria. Ele simplesmente escreve.
Poeta é isso: escreve sem querer muita coisa. Deixa a mão correr e respeita o pensamento. Sai correndo atrás do fluxo... Sai correndo como um homem que deseja capturar insetos pequenos e velozes... Sem chance. Não se captura o pensamento: é preciso soltá-lo da boca.


Escrever é sempre um expurgo, ainda que um expurgo às avessas.


 
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