Riobaldation

Eis arguns trechos do "Grande sertão: veredas"... Tudo na voz de Riobaldo, meu filósofo preferido, encantado, amigo das araras e dos buritis de dentro:

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-e-vem, e a vida é burra... Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor... E as pessoas não nascem sempre? O senhor não vê? Deus existe mesmo quando não há.

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Vedade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. A força de Deus, quando quer - moço! - me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê! Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre.


E então o tirador de foto viu a alma da pessoa... (Sahel, Salgado)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para gente é no meio da travessia.

Eu queria decifrar as coisas que são importantes... Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.

Viver é muito perigoso.... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo querer o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxaram o mundo para si, para consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.


No deserto. O deserto, o deserto, o deserto é a coisa mais linda desse mundo (Salgado)

Anta entra na água, se rupêia. Mas, não. Era não. Era, que eu gostava dele. Gostava dele quando eu fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e do sonho de minhas noites.

Desde que da rede levantei, com aquele peso anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante.

Gosto melhor, para a idéia bem se abrir, é viajar em trem-de-ferro. Pudesse, vivia para cima e para baixo, dentro dele. Informação que pergunto: mesmo no Céu, fim de fim, como é que a alma vence se esquecer de tantos sofrimentos e maldades, no recibido e no dado? Ai como? O senhor sabe: há coisas medonhas demais, têm. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. Vai, mar...


Eu amo essa foto do Salgado. Tem vida demais no olhar dela. Chega a doer de vida!!!

Ver o luar aluminando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se fase sozinho.

Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente.

Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada.

Comigo as coisas não têm hoje e anteontem amanhã: é sempre.


Primeira Comunhã, Salgado (Tem coisa mais Brasil que essa foto seu moço?)

E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, como desse a minhas carnes alguma coisa. Era uma mão branca, com os dedos dela declidados. "Você também é animoso..." - me disse. Amanheci minha aurora.

O que eu guardo no giro da memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no sombrio amontoados, feito bichos e árvores, o refinfim do orvalho, a estrela-d´alva, os grilinhos do campo, o pisar dos cavalos e a canção do Siruiz. Algum significado isso tem?... Aquele dia tinha sido forte coisa.

Eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita coisa importante falta nome.


Odoiá! (Salgado)

Assim eu ouvi, era tão singular. Muito fiquei repetindo em minha mente as palavras... E ele me deu a mão. Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandezas. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos - logo eu disse: "Diadorim... Diadorim!" - com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava.... Aquele dia fora meu, me pertencia. Sertão é isto, o senho sabe: tudo incerto, tudo certo.

O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.

Ave, vi de tudo neste mundo! Já vi até cavalo com soluço!

Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Deus governa grandeza.


Sudão, Salgado. E tem coisa que a gente só sabe pintando mesmo...

Comentários

Marina, é mesmo, está na capa do disco. Eu me lembrava que ela estava em algum lugar, mas não me lembrava where... Um abraço

25.07.08 11:55 - GH - GH

Adorei o que você falou Estela. Com farinha. Perfeito.

GH - GH - 25.07.08 11:56

Solkowski , não concordo. Isso de ficar falando que o fulano faz \"marketing em cima da pobreza alheia\" já tá meio fora de moda sabe... Pelo menos penso assim. Então qual seria a solução? Não retratar mais a miséria? Ou então negar os prêmios e a notoriedade? Sartre negou o Nobel e isso só lhe trouxe mais aclamação (embora pense que no caso dele o lance foi mais ideológico). Olha, eu tenho uma filosofia de vida: a biografia do artista nunca me importa. Nunca mesmo. Eu não tô nem aí com a vida pessoal do outro. Na verdade, na minha análise de arte, não dou vez aos moralismos. Se a pessoa for drogada, alcoolizada, filha-da-puta, sem-vergonha, pederasta, esquizofrênica, nada disso me importa. O que eu vejo é o valor da obra. Sempre analisei a arte desta maneira e não acredito que mude de idéia. O próprio Arthur Bispo do Rosário: doido, doido de pedra, internado em hospício e tudo... E como dizer que as obras dele não são lindas? Eu sempre vou pelo caminho da criação. Como a pessoa vive, se ela tem cólicas renais ou se gasta dinheiro comprando cabeças de veado para enfeitar a parede, bem, isso já é lá pobrrrrrrema dela. De qualquer forma, obrigada pela tua opinião. E seja bem-vindo. Um abraço

25.07.08 11:53 - GH - GH

Grande Sertão Veredas é coisa para ser comida com farinha, e os trechos foram muito bem selecionados. Adorável.

Estela - 25.07.08 06:48

Solkowski, o rockfeller também. não entende a bagaça, vaza!

25.07.08 06:45 - groucho

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Sebastião Salgado ganha fortunas em cima da miséria alheia. Apenas isso.

24.07.08 20:08 - Solkowski

As fotos dele sempre são ótimas. Tem uma dos pés carcomidos em chinelos ultra gastos, que dá uma tristeza sem fim. Sebastião sabe das coisas que faz.

maven - 24.07.08 06:39

cacete, essenão é jum post pra sr lidl.é pra ser guardado e revisitado de tempos em tempos. tem muita coisa pra se refletir com o riobaldo e as fotos só ajudam na reflexão. (concordo com o maven, osebastião sabe ser sensível com a pobreza sem ser apelativo)

24.07.08 06:44 - groucho

essa foto da menina, tem na capa de um cd do Chico Buarque (que ele fez para o MST) que minha mãe tem. quando eu era criança, sempre mexia nos cds e encontrava aquela capa com aquela menina e um velho na parte de trás, numa janela. não entendia nada, mas ver aquelas imagens me doía.

Maven, eu sei qual é a foto dos pés. É bem intensa mesmo. Linda, porque o que é triste é também lindo.

GH - GH - 24.07.08 15:20

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