A mulher de todos

Semana passada tive a grande felicidade de assistir ao festival de Cinema de Ouro Preto. Muito bem organizado e com produções de qualidade, inclusive o "Satori Uso", do Grota. Aliás Rodrigo mizifi, que demais estava o cenário: teu filme foi exibido às 19h e pouco, luzes acesas na praça Tiradentes, o sino da Igreja de São Francisco de Assis tocando enquanto a tua película rodava. Algo doido, psicodélico, algo de surpresa como essas coisas de Pedro Páramo, Macunaíma e Bergman!
Do caralho mesmo, você ia amar, pena que não deu pra sua pessoa ir!!!!!

Agora o que realmente me arrebatou foi "A Mulher de Todos" (1969), primeiro filme de Rogério Sganzerla depois do impactante "O Bandido da Luz Vermelha" (1968). O roteiro é baseado no texto de Egídio Eccio.

Para iniciar esse texto eu achei legal comungar do sentimento que Daniel Caetano (http://www.contracampo.com.br/30/mulherdetodos.htm) teve em sua leitura sobre o filme com título homônimo ao meu. Sua primeira impressão:

Por me propor a escrever sobre A Mulher de Todos, decidi rever mais uma vez o filme. E aí cheguei a pensar em algumas coisas esparsas a desenvolver. Mas um grande, sonoro e caudaloso palavrão talvez desse conta de todo o sentimento que as palavrinhas tentariam organizar a partir do filme. Então, fica o registro:
— Puta que pariu!!!!!!!
Será este o filme nacional do século 21? Do 16 ou do 21?


Faço minhas as tuas palavras Daniel: "Puta que pariu!!!!!"

Como referência vou citar trechos do Daniel e do excelente artigo do Leonardo Bonfim presente na revista virtual "The Freakium": (www.freakium.com/edicao5_mulherdetodos.htm) . Aliás, estes dois textos que cito são uma das melhores críticas de cinema que andei lendo nos últimos tempos.

Leonardo abre sua análise esclarecendo: "Antes de qualquer coisa gostaria de deixar bem claro que isto não é uma matéria, e sim uma declaração de amor".

Porra Leonardo, tive a mesma sensação ao assistir ao filme. Eu simplesmente caí de amores por Ângela Carne e Osso. Fiquei encantanda, doida mesmo!!! Sabe quando a gente sai do cinema dizendo: "Caraaaalho!!!". Nem quis assistir ao filme que vinha na sequência no Festival.

Definindo, "A Mulher de Todos" é um filme muito meu. "Meu" porque Helena Ignez interpretou Ângela Carne e Osso de um modo sublime. Eis uma anti-heróina, alguém a frente de seu tempo. Ou, como diz o Leonardo, "é uma mulher que, mesmo no novo milênio, nunca aconteceu". Adorei a reflexão dele: "Nenhuma mulher até hoje conseguiu ser Ângela Carne e Osso por mais de quinze minutos". Só que eu vou além e ouso dizer que ela é a mulher que deixo guardada quieta e calada dentro, mas que pode explodir a qualquer minuto sem que consiga controlar ou dominar os instintos que nos fazem "tudoédivinomaravilhoso" (dá pra perceber que escuto a Gal enquanto escrevo).

Pois bem, logo no início do filme eu entrei no "plasma do mistério", só para plagiar a Claricemeuamor!, em especial devido à atmosfera propicidada pelo estilo 35mm, pb e pelo jogo de filtros que envolvem os espectadores retrôs como yo. Ângela é a mulher que todas querem ser: livre. "A inimiga número um dos homens" centra o olhar irresistível à câmera e, com uma faca por entre os dentes, solta seu sensacional mote: "Nós não gostamos de gente!".

Outra frase que achei superrrrr e que até já adotei como mote: "Eu agora vou me dedicar aos boçais. Homem bacana só dá trabalho" Hahahahahahahaha! Genial, genial, genial!!!!

Ângela, "a rainha dos boçais", "vampira tresloucada", "bêbada", "drogada", "histérica", "ninfomaníaca", que canta Noel Rosa "Ah! Que mulher indigesta, merece um tijolo na testa"!!! Genial!

A grande anti-heroína ainda tenta se defender: "Dizem que sou louca, histérica. Mas eu sou uma mulher normal!". O pior é que toda mulher é histérica, como dizem meus amigos Freud, Breton e Dalí. E eles estão certos até o último fio de cabelo! Hahahahaha! Ângela Carne e Osso, de biquini, semi-nua se requebrando enquanto rola rock e Gal na vitrola (por isso estou ouvindo Gal 60/70´s). Ângela, aquela que chega a enfiar uma agulha num de seus inúmeros amantes e em seguida nela mesma... A própria Helena Ignez, em entrevista ao Pasquim (edição n.33, 5-11 de fevereiro de 1970. Vale a pena conferir!!!! Excelente!!!!) assume o clima de libertinagem do filme: "E eu tive essa possibilidade, uma liberdade incrível de fazer diabos, misérias".

Concordo plenamente com o que o Daniel diz em seu artigo e assino em baixo: "Helena é como Garbo, como Lilian Gish, como Bardot jovem, como Deneuve, uma das mais magnéticas presenças já descobertas a vinte e quatro quadros por segundo e também uma atriz excepcional, e o filme é o filme de um homem apaixonado". Pudera: o diretor Rogério Sgarzela é seu companheiro.

Daniel prossegue seu pensamento: "Apaixonado como o corno boçal Plirtz, o mais boçal de todos, o magnata do cartel dos quadrinhos desconfia que Ângela está lhe traindo, e até contrata um detetive para seguir a esposa. Com quem ela lhe trai? Ora, compadre, procura uma lista telefônica... Também, um cara que tem tesão em ser chamado de bitolado, quer o quê, mané? Até o detetive cai de quatro e entra na roda!".

Olha, para entender o filme é preciso, antes de tudo, entrar no clima de Ângela e dar anteção á sua pergunta essencial: "O que você vai fazer no final de semana? Já foi à Ilha dos Prazeres?".

A estratégia da Ilha dos Prazeres é maravilhosa, senti como se Sganzerla dialogasse diretamente com Felinni em "8 ½". Cenário este muito propício à manifestação dos mais incríveis personagens, que me deixaram completamente extasiada: Doktor Plirtz, marido de Ângela, um magnata bitolado e nazista (olha aí o Sganzerla tirando os militares imbecis!) vivido por Jô Soares; o único milionário negro brasileiro encenado por Antônio Pitanga (outra crítica do caralho! Hahahaha! Amei!); o casal barango de São Paulo que polui a praia ("Bem, compra uma Cuba!"); e o toureiro gay assaltado por Ângela e que a mim me soou como um dos momentos mais cômicos do cinema nacional. Quando percebe que foi roubado e não terá como pagar seu curso de cabelelllleiro (como diz uma amiga!), desespera-se, desmunheca e xinga mais do que eu quando lasco o pé na quina da cadeira!

Ângela é tão absoluta que até mesmo seu fim é genial: "Sou um demônio anti-ocidental, eu cheguei antes!". E para finalizar, vou citar o último parágrafo do Leonardo, que fala com lucidez: "O impacto de uma vampira heróica como Ângela Carne e Osso fica restrito a poucos pesquisadores e curiosos. Se não fosse por isso, o Brasil inteiro já estaria a seus pés".

Eu estou a seus pés Ângela. Completamente.

E sabe que após assistir ao filme eu elegi como nossa música (minha e de Ângela Carne e Osso) "Tigresa", cantada pela Gal, é lógico (alguma dúvida?):

Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel

Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin’ Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor

Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão

As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento

Comentários

olha, não li inteiro pra não perder toda a supresa do filme. mas depois desse teu texto apaixonado fiquei na fissura de assistir!!! duro vai ser encontrar um lugar que tenha o filme.

groucho, talvez na seção pornô - 25.06.08 13:05

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que legal que vc viu o satori. tenho \"a mulher de todos\" em vhs.. filmaço! queria ter visto na tela grande! !! r.

Como é difícil de encontrar prá locar, quem quiser baixar esse filme em AVI (não é como ver na tela grande, claro, mas só pra matar a curiosidade) eu tenho o torrent dele. Me escreva que eu mando: voi_2000@hotmail.com

19.08.08 17:31 - Voi 2000

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