Mortos que voam para trás

É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás).




Depois do horror do caso do assassinato de Marcos Paulo da Silva, David Florêncio da Silva e Wellington Gonzaga Costa pelos 11 membros do Exército encarregados de “proteger” os moradores do Morro da Providência, fiquei pensando no que escrever...
É, porque diante de um absurdo como o do referido episódio a gente fica sem saber o que falar... Eu estava relendo o “Poema Sujo”, do Ferreira Gullar e achei que o trecho acima descreve com propriedade o escândalo das mortes.

O Suassuna deu título a um livro que eu invejo: “Poemas com Mote Alheio”. Eu invejo porque isso de pensar algo com o mote alheio é um recurso ultra empregado pela minha modesta (porém limpinha) pessoa. Diante da perplexidade da covardia dos soldados, eu acredito que talvez algo que explique o inexplicável da situação seja isso de visual do poema, do quase cinematográfico do poema: as velocidades diferentes que movem uma cidade...

Certamente enquanto os três jovens, negros, pobres eram mortos, alguém, na mesma cidade, assava um bolo; pintava as unhas das mãos de esmalte “Areia” número 35; lavava o banco traseiro do carro; aguava samambaias; traía o marido em um motel cheio de espelhos; comprava lapiseira, esquadro e borracha ao filho; pegava carona ao treino de futebol; estudava para a prova de álgebra; comprava pão francês, presunto e queijo na padaria da esquina; lia a última fofoca sobre a separação da atriz da novela das oito; pedia um pingado, “mais escurinho do que claro”. Simultaneamente vivemos na mesma cidade, no mesmo país, mas o que ocorre é que estamos tão absortos em nossos próprios umbigos que não comungamos mais do que um espaço físico.

Três jovens, negros e pobres, encontrados no dia 14 de junho no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada. David (24), Wellington (19) e Marcos (17) exibiam escoriações, mutilações e demais marcas de tortura. O Comando Militar do Leste (CML) informou que os rapazes foram detidos porque “desacataram” os soldados. Agora espera aí: que tipo de “desacato” três jovens negros, pobres, poderiam ter feito a brutamontes armados e fardados? Já não é “desacato” suficiente ter nascido num lugar pobre, com falta de saneamento básico, falta de educação, falta de perspectiva profissional? Não paro de visualizar a cena: imagine só, três jovens magros, negros, pobres, no morro. Sim, provavelmente eles deviam estar de chinelão imitation Havaianas (porque hoje em dia Havaianas é coisa cara, virou marca. Eu mesma tenho uma imitation que comprei no Méier por R$ 3,49). Tá, imagino os caras de chinelo, shorts, roupas leves e simples, pois estamos no Rio, é quente e além disso os rapazes são uns duros. Três pobres, pretos, de sandália imitation Havaianas “desacatam” homens armados do Exército.

Mas que tipo de “desacato” pode ter acontecido?

Não, não pára de entrar na minha cabeça o filme horrendo: e, com o momento da câmera em lentidão projeto a cena: a covardia se instaura. Quando estava em Dubai comprei o Corão em versão espanhol. Leia-se: “A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro”.

Três jovens entregues à favela rival como carne jogada a bichos famintos pelo próprio Exército?
Três jovens de chinelo imitation Havaianas entregues como carne?

Hoje li o artigo “O impensável”, da psicanalista Maria Rita Kehl, na Folha de S. Paulo e não pude discordar de seu pensamento. Porque não foi um artigo defendendo bandeiras, daqueles de tom ufanista, querendo defender uma causa pela “paz” e essas baboseiras que a zona sul inventa para amenizar. Ela escreve algo muito honesto: “Quando membros corruptos da PM carioca mataram a esmo 30 cidadãos em Queimados, houve um pequeno protesto em Nova Iguaçu. Cem pessoas nas ruas, familiares dos mortos, nada mais. Nenhum grupo pela paz foi até lá. Nenhuma Viva Rio reuniu gente de branco a marchar em Ipanema. Ninguém gritou ‘basta!’ na zona sul. Não é a mesma cidade, o mesmo país. Não nos identificamos com os absurdos que acontecem com eles”.

Só que eu me identifiquei com o absurdo sim. Enquanto tentava escrever esse texto que tá truncado, ruim, que não se desenvolve pelo absurdo da situação e pelo absurdo que me impede de articular com propriedade uma lógica para algo que não tem lógica, lá vem o meu mano Lu e me diz: “Você ficou sabendo do cara que foi morto num cyber café em Londrina por uns malacos que se recusaram a pagar um real pelo uso das máquinas?”.

Espera. Eu me identifico sim. Identifico-me porque o cara morto poderia ser meu irmão. Identifico-me porque dias atrás fiquei ouvindo uma masturbation mental em uma rodinha sobre a violência, “está feio o negócio!”, é preciso fechar a janela do carro porque “esse povo que vende bala na JK é tudo bandido”... Eu já não sei mais como agir... Todos se trancando em seus muros enormes, todos se defendendo uns dos outros – uns entregues como carne de segunda; outros mortos por um real; outros ainda preocupados em comprar um ar-condicionado porque o verão vem aí e é preciso trancar a janela, trancar as portas.

Caralho! Que é que se faz? Não tem como não usar como mote um trecho do livro “Isto é um homem?”, de Primo Levi, escrito durante sua passagem em campo de concentração:

Isto é o inferno. Hoje, em nosso tempo, o inferno pode assim ser descrito: uma sala grande e vazia, com alguns homens cansados, obrigados a ficar em pé. Nela há uma torneira que goteja, mas de sua água não se bebe, e ficamos aguardando por algo realmente terrível, porém nada ocorre. Que pensar?
Já não se pode pensar, é como se estivéssemos mortos. Alguns se sentam no chão. O tempo transcorre gota a gota.

Eu não sei o que pensar... Nem o que escrever. Eu não sei escrever sobre absurdos. Eu não sei escrever sobre os “mortos que voam para trás” nem mesmo com mote alheio.


* * *

APÊNDICE (texto de André Naddeo - BOL)

Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, era o mais novo dos jovens assassinados. E o que tem a história mais irônica: seu sonho, desde garoto, foi ingressar no Exército. "Ele sonhava em fazer logo 18 anos para poder se alistar, ele queria usar farda e tudo o mais", relembra a mãe, Maria de Fátima Barbosa, 48, agora indignada ao ver que, supostamente, seu filho foi levado justamente por militares e entregue a uma facção criminosa. Desde cedo, para seu próprio sustento e dos seus outros seis irmãos, ajudava a mãe descarregando caminhões de areia em obras dentro da própria comunidade da Providência. "Ele arrumava um dinheirinho com isso, né. A gente não tinha dinheiro, sempre passamos por bastante dificuldade", conta.

Comentários

Dé, A situação está realmente sufocante, todos estamos num mundo doido, sei lá, nem sei dizer quais as perspectivas... E quando alguém vem com soluções, sempre parece discurso.

24.06.08 11:20 - GH - GH

Até pouco tempo, muita gente achava que botar as Forças Armadas nos morros seria a inevitável solução para acabar com a violência no Rio, já que a polícia estava completamente desmoralizada por causa da corrupção entranhada na instituição. Depois dessa tragédia, não há mais um único cidadão carioca que defenda a proposta e confie no Exército. O Rio está definitivamente entregue aos bandidos. Não há mais saída, não há mais solução. O Rio acabou.

23.06.08 20:37 -

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