Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. [...] Faço paisagens com o que sinto. [...] Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de uma criança para as outras. [...]
Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. [...]. Crochê das coisas. Intervalo... Nada... (Bernardo Soares - ou Fernando Pessoa? - em
Livro do desassossego, fragmento 12)
Isso do “crochê das coisas” é coisa boa, como uma mão que emaranha palavras. Mas não só a palavra. Tampouco a falta dela. Há igualmente um desassossego entre “o sonhar” e “o agir”; há uma espécie de fuga do mundo, como se as voz narrativa buscasse encontrar outras vivências num permanente estado de vigília:
Tenho sonhado muito. [...] De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! (Idem, fragmento 102)
Este estado de torpor pode ser definido ao se concluir quando a gente acorda pela manhã e vê que o mundo da palavra é uma possibilidade infinita de personagens que nos fazem um ser uno... Todos essas personagens que nos habitam. Antes de ser coisa narrada, a narrativa é forma de narrar o mundo. Na transição sono-vigília o devaneio surge como solução absoluta, já que o narrador passa a se encontrar em outro espaço, cuja paisagem traduz seu espírito de inquietação.
Viajar é estar em pleno estado de vigília.