Amo Virginia Woolf. Ela é muito densa, fala o que precisa ser falado dentro.
Ela grita em mim.
E eu agradeço.
Agora trechos de “The Waves”. Vou usar a tradução da Lya Luft porque ela fez um trabalho belíssimo. Essa é sem dúvidas uma das melhores traduções que já li.
Os trechos são pra você Ju.
Opyorum.
No correr de minha vida [...] farei o gigantesco amálgama das discrepâncias tão cruelmente óbvias em mim. Conseguirei isso à força de tanto sofrer. Vou bater. Vou entrar.

(Capadócia)
Sou as estações , penso às vezes, janeiro, maio, novembro, a lama, a neblina, a madrugada. Não posso agitar-me nem esvoaçar docemente, nem misturar-me com outras pessoas. Mas agora, recostada neste portão até o ferro deixar marcas nos meus braços, sinto o peso que se formou dentro de mim.

(Chá turco)
E como, sob certo aspecto, sou iludido, porque a pessoa está sempre mudando, e o desejo não, e pela manhã não sei com quem me sentarei à noite, nunca estagno; ergo-me de minhas piores desgraças, volto, transformo-me. Pedregulhos ricocheteiam na armadura de meu corpo musculoso e distendido. Envelhecerei nessa busca.

(Yeni Camii)
Corre ouro em nossas veias. Um, dois; um, dois; o coração pulsa quieto, confiante, em um transe de bem-estar, um êxtase de bondade; e vejam – as partes mais longínquas da Terra – sombras pálidas no mais longínquo horizonte, como a Índia, por exemplo, estão ao nosso alcance. O mundo que fora encolhido, arredonda-se; províncias remotas são retiradas das trevas; vemos estradas lamacentas, florestas intrincadas, bandos de homem e o abutre que se alimenta de uma carcaça inchada, como se estivessem dentro do nosso meio, como parte da nossa esplêndida e altiva província, pois, cavalgando sozinha uma égua mordida de pulgas, Percival avança por uma trilha solitária, tem sua tenda presa entre árvores desoladas, diante de montanhas enormes.

(Hagia sofia)
A reserva comum de experiência é muito funda. Temos entre nós bandos de crianças de dois sexos, que educamos, que visitamos na escola com sarampo e que criamos para herdarem nossas casas. De um modo ou de outro, fazemos este dia, esta sexta-feira, alguns indo aos tribunais; outros à cidade; outros ao berçário; outros marchando em filas de quatro. Um milhão de mãos bordam, erguem caixas com tijolos. A atividade é interminável. E amanhã recomeça; amanhã faremos o sábado. Alguns pegarão o trem para a França; outros, o navio para a Índia. Alguns nunca voltarão a esta sala. Um pode morrer esta noite. Outro gerará um filho. De nós brotará toda espécie de construção, política, felicidade, poema, filho, fábrica. A vida chega; a vida se vai; nós fazemos a vida.

(Capadócia)
Mas quando você chega, tudo muda. As xícaras e pires mudaram quando você entrou esta manhã. Não pode haver dúvida, pensei, afastando o jornal, de que nossas insignificantes vidas, disformes como são, assumem esplendor e significado apenas aos olhos do amor.

(Ulus - Ankara)
Cada visão é um arabesco traçado de súbito para ilustrar um capricho ou a maravilha de um momento de intimidade. A neve, o cano estourado, a banheira de folha-de-flandres, os gansos chineses – são sinais lançados ao alto, onde, olhando para trás, leio a característica de cada amor; como cada um era diferente.