Por que os elefantes precisam caminhar tanto para comer?

Vírgula (António Maria)

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

Esse poema é maravilhoso. Maravilhoso porque eu o tenho como meu. Quem sabe não o escrevi em sonhos? Pra mim o poema tem diálogo com essa imagem de Picasso (Menino com cachimbo, 1905), da fase rosa, que eu adoro...

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Adoro o António Maria. Ele simplesmente escreve.
Poeta é isso: escreve sem querer muita coisa. Deixa a mão correr e respeita o pensamento. Sai correndo atrás do fluxo... Sai correndo como um homem que deseja capturar insetos pequenos e velozes... Sem chance. Não se captura o pensamento: é preciso soltá-lo da boca.


Escrever é sempre um expurgo, ainda que um expurgo às avessas.


 

Riobaldation

Eis arguns trechos do "Grande sertão: veredas"... Tudo na voz de Riobaldo, meu filósofo preferido, encantado, amigo das araras e dos buritis de dentro:

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-e-vem, e a vida é burra... Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor... E as pessoas não nascem sempre? O senhor não vê? Deus existe mesmo quando não há.

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Vedade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. A força de Deus, quando quer - moço! - me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê! Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre.


E então o tirador de foto viu a alma da pessoa... (Sahel, Salgado)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para gente é no meio da travessia.

Eu queria decifrar as coisas que são importantes... Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.

Viver é muito perigoso.... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo querer o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxaram o mundo para si, para consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.


No deserto. O deserto, o deserto, o deserto é a coisa mais linda desse mundo (Salgado)

Anta entra na água, se rupêia. Mas, não. Era não. Era, que eu gostava dele. Gostava dele quando eu fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e do sonho de minhas noites.

Desde que da rede levantei, com aquele peso anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante.

Gosto melhor, para a idéia bem se abrir, é viajar em trem-de-ferro. Pudesse, vivia para cima e para baixo, dentro dele. Informação que pergunto: mesmo no Céu, fim de fim, como é que a alma vence se esquecer de tantos sofrimentos e maldades, no recibido e no dado? Ai como? O senhor sabe: há coisas medonhas demais, têm. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. Vai, mar...


Eu amo essa foto do Salgado. Tem vida demais no olhar dela. Chega a doer de vida!!!

Ver o luar aluminando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se fase sozinho.

Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente.

Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada.

Comigo as coisas não têm hoje e anteontem amanhã: é sempre.


Primeira Comunhã, Salgado (Tem coisa mais Brasil que essa foto seu moço?)

E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, como desse a minhas carnes alguma coisa. Era uma mão branca, com os dedos dela declidados. "Você também é animoso..." - me disse. Amanheci minha aurora.

O que eu guardo no giro da memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no sombrio amontoados, feito bichos e árvores, o refinfim do orvalho, a estrela-d´alva, os grilinhos do campo, o pisar dos cavalos e a canção do Siruiz. Algum significado isso tem?... Aquele dia tinha sido forte coisa.

Eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita coisa importante falta nome.


Odoiá! (Salgado)

Assim eu ouvi, era tão singular. Muito fiquei repetindo em minha mente as palavras... E ele me deu a mão. Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandezas. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos - logo eu disse: "Diadorim... Diadorim!" - com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava.... Aquele dia fora meu, me pertencia. Sertão é isto, o senho sabe: tudo incerto, tudo certo.

O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.

Ave, vi de tudo neste mundo! Já vi até cavalo com soluço!

Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Deus governa grandeza.


Sudão, Salgado. E tem coisa que a gente só sabe pintando mesmo...


 

FEDERICO GARCÍA LORCA

UM POEMA PERFEITO...


ROMANCE SONAMBULO

(A Gloria Ginery a Fernando de los Ríos)

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mary el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cinturaella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

*
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.

*
Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando
desde los puertos de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
este trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿ No veis la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
¡Dejadme subir!, dejadme
hasta las altas barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.

*

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

*
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

*
Sobre el rostro del aljibe,
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

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EU, MEU NOME

Talvez tenha encontrado
a poesia do nome

Sou um cristal,
uma pedra a flutuar no abismo

Ela
é o exato momento
suspenso
antes da queda

(Susana Vargas)


(Cícero, Cícero, Cícero)


 

VAI TOMAR NO CU!!!!

Hoje tô com a boca suja pra caralho, tô politicamente incorreta, tô pior do que o Roberto Piva no especial realizado pela Cultura que foi ao ar na úrrrtima sexta, dia 4 de Júlio Cortazar. Entãocis, eu quase morri de rir porque o Piva falou umas frases óóótemas, do tipo: "Nietzsche só acreditava num Deus que soubesse dançar. Pois é, eu só acredito num Deus que saiba beber. Baco é meu Deus, Dionísio é meu Deus, Exú Tranca Rua é meu Deus!" Hahahahahahahaha! Muito boa essa! Outra pérola dele: "Eu sou monarquista porque comungo dum pensamento do Dalí. Uma vez ele disse ser monarquista porque é somente com o monarquismo que as bases se orientam completamente anarquistas!".
Pois é, ele bebe mas fala uns troços coerentes rapá! Esse Piva é mesmo um incompreendido.

Mas por que então tô puta hoje?
Na verdade tô puta desde ontem à noite. O lance dos policiais imbecis, filhos-da-puta, burros, mentecaptos, idiotas, boçais terem matado à sangue frio a criancinha de três anos. Eu confesso que na minha casa eu não ligo a tevê, ela é meramente um objeto de decoração porque eu tô cansada de ficar naquela de assistir tragédia e desgraça. Não sou muito masoquista neste sentindo não. Além disso eu preciso estudar, então a equação "leitura + tevê" não combina como não "orna" freira de biquini. Mas quando estou na casa da mama não tem jeito, a tevê é ligada 27 horas por dia. Ontem o Jornal da Rede Tevê e da Globo (fora os outros que não assisti) mostraram a dor do pai que teve o filho exterminado pela inteligente puliça. Meu Deus, mas que situação mais absurda!!!!!

O menino João Roberto Amorim Soares, de três aninhos, só três aninhos, foi atingido durante perseguição policial, na noite de domingo (6), na rua General Espírito Santo Cardoso, na Tijuca, Rio. O absurdo: as antas dos filhos-da-puta sem cérebro dispararam SOMENTE 16 tiros no carro da família do menino, que teve morte cerebral. O que dá mais raiva é ver o imbecil do brocha (ele tem a maior cara de brocha sim!!!!) do secretário estadual de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, chamar de "desastrosa" a ação dos policiais militares: "Foi uma ação desastrosa, que demonstrou falta de preparo psicológico e operacional", afirmou. Meu Deus, mas então fica por isso mesmo?:

- Olha, desculpa aí, foi desastrosa a ação...
- Tudo bem Beltrame, a gente entende, tadinhos dos policiais, tão sob tensão...

Bando de filhos-da-puta (com todo respeito às putas e com toda ênfase à conotação do palavrão!).

Os dois PMs envolvidos na operação foram presos no 6º Batalhão (Tijuca) e quem acredita que eles vão sofrer qualquer tipo sério de punição?
Alternativa A ( ) Papai Noel
Alternativa B ( ) Coelhinho da Páscoa
Alternativa C ( ) Fada do dente
Alernativa D ( ) todas acima

Daqui a pouco, quando a merda da mídia encontrar outros corpos para atacar de urubu, daí ninguém vai se lembrar do menino tampouco da dor do pai. A imagem daquele pai desesperado, o taxista Paulo Roberto Soares, indignado, doido da vida acabou me comovendo porque o cara é trabalhador, rala mesmo... A mãe das crianças (tinha outro bebê no carro, esse de nove meses, que não teve ferimento algum), Alessandra Amorim Soares, conta que os policiais atiraram no carro que ela dirigia, um Palio Weekend.
Os policiais idiotas e sem massa cefálica alegam que trocavam tiros com ladrões de um Fiat Stilo preto e negaram ter atirado em direção ao carro em que estava João. Ahã, claro, tá, eu acredito nisso. O João foi morto pela Suzane von Richthofen, tá bom então, desculpa aí puliçaiada.

A mãe da vítima contesta a declaração furada, revelando que um carro preto passou por ela em alta velocidade. Em seguida, ao ouvir a sirene policial, deduziu que havia uma perseguição e deu passagem à patrulha da PM. Neste momento os policiais começaram a disparar contra o carro dela, que tem os vidros cobertos por película escura. Mesmo ferida na barriga e nas pernas, Alessandra abriu a janela e jogou a bolsa infantil que carregava, para mostrar aos PMs que lá havia crianças. Os policiais ainda gritaram: "Cadê o bandido? Cadê o bandido?" (tá na tua casa, comendo a tua mãe, filha-da-puta!!!!). Foi quando ela saltou do Palio, abriu a porta traseira, pegou o corpo do primogênito, estendeu-o no chão e repetiu para os policiais, duas vezes: "Vocês mataram meu filho".

Isso é cena de filme?
Não, infelizmente não é novela da Rede Globo com a gostosona da Juliana Paes fazendo papel de mãe desesperada ensaguentada de catchup.
That´s life babe.

O pai, comovido, disse à imprensa: "Os policiais metralharam o carro da minha mulher e não deram chance de defesa. Tinha criança dentro do carro. Quase que matam a família toda. Minha mulher está com o corpo cheio de estilhaços. Ela encostou o carro como todos nós faríamos para dar passagem. Eles não perseguiram bandidos, eles seguiram o carro da minha família, e metralharam um carro com uma mulher e duas crianças dentro."

Segundo os médicos, a bala que matou João Roberto entrou pela nuca e se alojou na parte frontal da cabeça. À tarde, o hospital informou que o casal concordou com a doação dos órgãos do filho.

Situação absurda, surreal. E daí vem o brocha do Beltrame (ainda bem que ninguém lê o meu blog e eu posso chamar o Beltrame de brocha quantas vezes eu quiser!!!! Brocha! brocha! Brocha!) dizendo que "um fato como esse não tem desculpa", mas que os policiais que atuam no bairro da Tijuca estão sob "constante tensão": "O policial que sai para a rua em um domingo à noite em uma zona que tem 19 morros já sai preparado, vigilante".

Nada justifica Beltrame, nada!!!! O cara já tá virando expert em dar entrevistas vagas falando sobre as ações "desastrosas" da polícia do Rio. Olha caro secretário brocha, tem dias que eu também trabalho pra caralho, tem dias que eu tenho vontade de mandar os alunos imaturos que me enchem o saco por causa de nota tomarem no cu, tem horas que eu tenho vontade de dizer para uma porção deles: "Olha seus merdas, vocês não servem nem para limpar privada, seus inúteis", mas eu penso, reflito, conto até três, respiro fundo e ajo com coerência, como é para ser. É claro que não se pode comparar as duas situações, seria realmente um absurdo se eu usasse do discurso para isso, afinal eu não recebo nem 1% da tensão que os policiais desenvolvem ao trabalhar em contato diário com a violência.

Mas tem um pequeno detalhe: cada um desses policiais ESCOLHEU esse trabalho. Nenhum foi recrutado à força... E daí vem a pergunta preconceituosa (mas verdadeira), até porque diante de uma situação dessas eu sou preconceituosa pra caralho e que se fodam os politicamente corretos (eu quero é que esse povo se foda meeeeeeesmo!): "Alguém com o mínimo de formação intelectual e moral, alguém com oportunidades no mercado de trabalho ESCOLHE ser policial?". Eu nunca vi um adulto de bom senso sonhar em ser policial. A maioria das pessoas que se submete à profissão se revela uma massa de frustrados, de gente sem a menor perspectiva no mercado de trabalho. Gente que escolhe entrar pra "puliça" como quem faz um concurso pra trabalhar em emprego que garanta salário, mais passe de ônibus e ticket alimentação. Não há preparo algum.

E isso é grave. Porque muitos dos que entram são uns completos de uns boçais, que diante do fato de serem uns merdas, uns frustrados, acabam repassando o "poder" que não têm no cano de uma arma. E daí a gente vira refém das antas. Falta treinamento, falta raciocínio, falta cérebro e falta carreira à polícia.

O secretário anunciou nesta segunda que a Secretaria Estadual da Segurança Pública irá inaugurar uma espécie de "universidade" (hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!) para a formação de policiais. Depois que acontecem os absurdos, daí inaugura "facorrrrdade", daí tudo se "árresorve"!!!!!
Eu queria é que naquele carro estivesse a família do delegado que falou à imprensa: "Vamos averiguar o caso". (Horrível o que eu falei, sei disso, mas tô me deixando ser conduzida pelo sentimento de revolta. Essa é, antes de tudo, uma escrita aquática como a de Breton e que se fodam novamente os politicamente corretos! Eles que morram assados na fogueira, bando de hipócritas!!!! Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né, seus filhos-da-puta!!!!).

É, e pelo jeito vai ficar no "estamos averiguando o caso", num gerúndio infinito e imoral.

E por falar em imoral, já que hoje eu tô possuída cá Pomba-Gira, co Zé Pilintra, co Exu Tranca Rua e ca Macaca Monga do parque de diversão, eu vou fazer um protesto contra o Detran:

EI, DETRAN, VAI TOMAR NO CU!!!!!!!

É palhaçada esse negócio de renovar a carteira. Primeiro que a gente paga uma nota pra ir lá fazer o teste de visão (que tudo bem) e um outro ridículo de "Direção Defensiva"... Vou colocar uma frase do Tio Miloquinha que define bem a palhaçada: "Sou motorista há mais de cinquenta anos e NUNCA bati o carro, NUNCA atropelei ninguém e NUNCA realizei qualquer tipo de infração. Daí vem os caras e me obrigam a fazer esse teste ridículo, como se fosse surtir efeito e conter toda a violência no trânsito. Esses palhaços só querem o nosso dinheiro".

E eu acrescento: só querem o nosso dinheiro e ainda por cima inventam o teste para fazer de conta que algo de fato contém a violência no trânsito, os acidentes e todos os males nas estradas...

Isso é ótimo. Eu acho que o Detran e os policiais deviam todos frequentar a mesma universidade...

Ai que hoje todo mundo merece mesmo tomar no cu!!!!!

Pronto. Xinguei bastante. E eu faço essas baixarias quantas vezes eu bem entender porque o brógui é meu e novamente eu uso do mote: "o brógui é meu e eu possa ponhá nele o que eu querê!".

Tá falado. E se não gostou do que eu falei vai passar talquinho na bundinha dos policiais e dar beijinho neles, vai lá!!!! (na verdade tô possuída com o espírito do Alborghetti).

Pra terminar, um questionamento do próprio pai do menino: "Eles não tiveram piedade, eles não tiveram pena. Gente, que polícia é essa?".


 

Uma talvez Júlia não tem nada a ver com isso

Acabei de conversar com a Ju. Ficamos um tempão no skype e ela me contando sobre como foi seu dia... Achei a história muito interessante e resolvi postar. O texto é grande e quem tiver preguiça de ler que vá assistir à Vanessa Camargo cantando Mariah Carey em versão sertaneja no programa da Hebe e me deixe em paz!

Bem, contextualizando, Ju, minha irmã lindíssima, mora em Dubai desde setembro do ano passado e há dois meses trabalha como arquiteta numa firma duns ingrêiz aí que eu sinceramente não me lembro o nome... Mas que o nome da firma é pomposo, ah, isso é! Hehehehehehe!

Bem, Ju me contou que fez amizade com uma moça do Iraque e hoje foi convidada a almoçar em sua casa. O cardápio muito apetitoso, no melhor estilo "oriente-médio-de-ser": ovo mexido com tomate e cebola, bolo, frutas, tâmaras maravilhosas e borek!!!! Ai meu Deus, boreeeeeeek: eu amo borek!! Borek é uma massa típica da culinária do "Médio Oriente" (lindo, né! É assim que se diz em Portugal).

Mas, porém, contudo, todavia eu não tô aqui para falar da gastronomia do Islã nem de como tenho loucura por massas... Até porque vegetariana tem cardápio reduzido e seria totalmente frustrante ao caro leitor ficar ouvindo descrição de vegetais, pois a especialidade do Oriente Médio, é, entre outros alimentos, a carne de carneiro e eu ficaria com dó de falar do bichinho e daí fuderia tudo!!! (Meu Deus, mas que irritante mania que eu tenho de criar a todo instante subterfúgios!!! Por que será que eu não dou certo como jornalista??? Hahahahahahaha! É que simplesmente eu tenho uma incontrolável mania - é mais forte do que eu!!!!!!!! - de colocar vários pensamentos na cabeça e querer revelá-los ao mesmo tempo, num kháos diabólico, tremendamente diabólico de "diabolus" como na música - "badalo"; "movimento" - e daí sai essa zona do caralho e eu já perdi o que eu tinha pra falar... Mas tudo bem, kháos é mesmo meu nome: lembrando que "no começo era o kháos", tá lá no Hesíodo e os gregos sabiam contar histórias...).

Enfim, Ju foi almoçar na casa da amiga dela, a Bana (cala a boca agora Marcele e conta a história porra!!!!!). No apartamento moram Bana, de 27 anos, sua mãe, quarenta e poucos sei lá quantos poucos, e mais duas irmãs, uma de treze e outra de uns vinte, que está na universidade. Bana mora desde os treze em Dubai. Saiu do Iraque porque o pai, engenheiro, havia recebido uma boa proposta nos Emirados, então pegaram trem, gaiola, galinha, travesseiro, mala e liquidificador e se mandaram... Há pouco tempo o pai faleceu (Ju não quis entrar em detalhes sobre essas coisas mórbidas e que revelam tristeza, portanto não queira caro leitor que eu lhe provoque pathos porque isso simplesmente não vai acontecer... Se quiser isso vá assistir ao “Ghost” ou “Titanic” versão dublada em português e me deixe em paz!).

Voltando... O que achei interesse postar foram especialmente as histórias sobre o Iraque que Bana narrou à Ju. E como eu sei que Ju é pessoa extremamente inteligente e sensível, vale a pena revelar sua conversa.

Bana é curda, mas Ju não se lembra da região (e vocês aí lá pensam que é fácil ficar decorando todos esses nomes em árabe? Tá bão...). Então eu fui obrigada agora a fazer uma pausa, encher uma garrafinha de água, fazer aquele xixi básico e na volta, procurei aqui no meu amigo Gugou um mapa da região. "Se oriente rapaz", como diz meu outro amigo Gilberto Passos Gil Moreira:



Como dá pra perceber, a região dos curdos, localizada na parte norte do Iraque faz fronteira ao nordeste com o Irã e ao norte com a Turquia (Noffffa!!! Mas se você não falasse eu nem ia saber!!!! Hehehehehe! Pessoa idiota a dona desse botequim "A veia no pulso", o mapa tá aí ôôô cérebro de Adilson Maguila!!!).

Tá. Bana é curda. Ela disse que realmente Saddam perseguia os curdos, não é história da imprensa internacional não. C´est vrai! É bastante interessante ouvir a versão de uma iraquiana sobre a invasão dos féladasputadisgraçado dos americanos coordenado pelo orelhudomaisburrodoplaneta Jorjão (com todo respeito ao animalzinho burrinho, que é tão bonitinho e não tem nada a ver cos pobrrrrema do praneta). Ela conta que realmente Saddam era insano, doido de pedra mesmo. Matava sem dó nem piedade quem fosse contra sua pessoula. Era Herodes mesmo, matou muita gente inocente, contabilizando criancinha e papagaio, aquilo tudo mesmo... Parece brincadeira, mas não é. O massacre foi coisa feia e os turcos deram uma "ajudim" básica pro Saddanzito e isso não é pira minha. Detalhe: quando morava com o MumuKikodoChaves (Hahahahaha! Essa foi boa! Boa não, foi ótEma!!) ele, na condição de turco legítimo, sempre me dizia que os turcos deram uma forcinha para dizimar a minoria curda. Ele pode ser cornoféladaputa e louco, mas é inegável que ele é um sujeito que entende de história e geografia:



Não ponhei crédito porque isso aqui não é tese de doutorado! Além disso, o site where eu peguei a foto não indicava autoria. Whatever, foto dramática, sem necessidade de legenda. Imagino o fotógrafo que clicou a cena! Caralho! E o pai caído em cima da criança, provavelmente com os braços agarrados ao seu corpo frágil na intenção de protegê-la!! O mais triste é ver o pescocinho caído da criança... Dá vontade de abraçar e amar, dá vontade de chacoalhar a criança e berrar: "Ei, acorda! Não morre não!". É foda, mundo insano, mundo cão! E daí pastor fala em "promessa de inferno". Que promessa o caralho! O inferno é aqui meu fio! Desce do ônibus!!).

Enfim, tá certo que o Saddam não era o melhor cara do mundo (eu mesma nunca ia querer um amigo desses, nem mesmo no Orkut!!), mas nada justifica a invasão americana. O doido do féladumarapariga do Mugabe não tá matando todo mundo no Zimbabwe??? E cadê as tropas americanas por lá??? Não tem petróleo, né?! Besta sou eu que recebo salário do Requião! Enfim, o Saddam não era um cara jóia, um exemplo de sujeito, era um didator, e em tal condição, um cara sandinário, sádico e totalmente frio. Mas nada justifica a invasão. Segundo a Bana, depois da invasão do Iraque pelas American troops o país entrou num verdadeiro abandono, uma pobreza doida mesmo!!! Restaram os pobres, que não têm condição de comprar passagem e se mandar. A avó, o tio e os seus abandonaram o país, imigraram para a Jordânia e perderam a casa e toda uma vida de sacrifícios e trabalho. Quanto ao petróleo, ele vai bem, obrigada. Os americanos estão explorando que é uma beleza! E isso não é papo de tiete de Che Guevara, é fato relatado por iraquiana.

Bana é curda, mas fez a faculdade em Bagdá. A cidade era lindíssima, mas depois da invasão ficou devastada. A liberdade não era aquela Brastemp, mas o Iraque também não era país que reduzisse mulher à “sub” como certos vizinhos seus. Bana disse: “Nenhuma mulher era obrigada a usar chador em público. Também não havia diferença entre sexos no mercado de trabalho”. Tá bem que eu sei que “woman is the nigger of the world”, como dizia meu amicíssimo John Lennon, mas o que ela queria dizer é que o Iraque não tinha as mesmas exigências com a parte feminina como o Irã ou a Arábia Saudita. Aliás, sobre esse lance de chador, burca, vale sim um apêndice que eu destaco. O pensamento da Bana e da Ju sobre o assunto “mulhermuçulmanatemquesecobrir” é algo que achei espetacular: não, não se trata de questão religiosa. O caralho! Trata-se de uma questão muito mais política do que religiosa. É puramente uma manobra para controlar a população... Mas não vou entrar no mérito porque essa não é o núcleo central do texto. Mas que eu comungo do pensamento das duas, ah!, isso eu comungo!

Voltando ao nosso papo do almoço, entre as histórias relembradas pela mãe de Bana, uma realmente me marcou pelo traço trágicômico. O irmão da mãe-da-Bana-que-eu-não-sei-o-nome era temporão. Portanto, frequentava a escola quando ela já era mocinha... Como era de se imaginar, nas escolas os professores eram funcionários “treinados” e faziam aquela lavagem cerebral “básica” para que as crianças fossem militantes do governo. Para se ter uma idéia, na escola os alunos chamavam Saddam de “tio Saddam”! Hahahahahahahahahaha! Quase me esbugalhei de rir quando a Ju contou! “Tio Saddam?”. Imagine!!!! E a gente que acha absurdo ver os caras roubando e guardando os dóli na cueca!!! Tem coisa pior!!! Enfim, o irmão temporão amava o “Tio Saddam”. Era “Tio Saddam” para cá, “Tio Saddam” para lá e a família não podia falar nada porque as famílias mais instruídas e que criticavam o titio aí sofriam grande represália, então o negócio era calar a boca porque sempre tinham uns infirtrados e sabecomé... Entãocis, mas a história não acaba por aí: teve uma vez que o irmãzinho chegou com um pôster do “Tio Saddam” e queria porque queria pregá-lo na janela de casa. A família ficou numa sinuca de bico porque se criticasse ou tentasse instruir o pobre do moleque o bicho podia pegar para cima deles... Repressão é repressão!!! Então a mãe da Bana foi obrigada a colocar o pôster do Saddam na janela da sala. Ela fazia assim: de dia, quando o menino ia à escola, fechava a cortina, de módis a esconder a cara barbuda do “tio Saddam” e só a abria quando o menino retornava das aulas. Os anos se passaram e hoje, o menino, morre de rir do episódio. Até porque o lado tragicômico da história é que ele é de fato o irmão da mãe da Bana forçado a fugir à Jordânia...

Bem, vou terminar o brógui com um pensamento da Ju que anotei porque essa mulé sempre opina com coerência, nem parece a irmã desse ser que vos escreve e que bateu a cabeça na quina da mesa quando ainda era bebê. Vamos lá às palavras da Senhora Aires & Aires: “A gente tem uma impressão errada do Oriente Médio. A família de Bana é muito calorosa, muito acolhedora e querida, apesar da triste realidade. Achei muito legal elas terem me contado todas essas histórias. Era o que eu imaginava e foi triste ver que um país culturalmente tão rico quanto o Iraque está nessa situação”.

É isso.

Beijo Ju e obrigada pelo aprendizado.


 

Os desejos inconscientes do homem são seu destino

Bas tardi titio Freud. A verdade é que eu agora tenho que estudar seu Sigmund e dessa vez não é invenção minha! Well, não é de endoidar tanto não. Eu mesma e minha humirdi pessoa achamos que Freud não tem nada de complicado, ele é bem didático, trabalha com analogias e alegorias... São os idiotas que complicam o que ele esquematizou. Freud é matemático também. Cruzou a álgebra do insconciente, sem esquecer de colocar aquela dose de sol, de sal e de ópio no meio da mistura. !Vale!
Hoje tô necessitada de García Lorca. Aliás, tô sempre carente dele, el más grandioso poeta español de todos los tiempos. Así es. (Pausa para o trecho grifado: do caralho!!!!)

PAISAJE CON DOS TUMBAS Y UN PERRO ASIRIO

Amigo,
levántate para que oigas aullar
al perro asirio.
Las tres ninfas del cáncer han estado bailando, hijo mío.
Trajeron unas montañas de lacre rojo
y unas sábanas duras donde estaba el cáncer dormido.
El caballo tenía un ojo en el cuello
y la luna estaba en cielo tan frío
que tuvo que desgarrarse su monte de Venus
y ahogar en sangre y ceniza los cementerios antiguos.

Amigo,
despierta, que los montes todavía no respiran
Y las hierbas de mi corazón están en otro sitio.
No importa que estés lleno de agua de mar.
Yo amé mucho tiempo a un niño
que tenía cien años dentro de un cuchillo.

Despierta. Calla. Escucha. Incorpórate un poco.El aullido
es una larga lengua morada que deja
hormigas de espanto y licor de lirios.
Ya viene hacia la roca. ¡No alargues tus raíces!
Se acerca. Gime. No solloces en sueños, amigo.

!Amigo!
Levántate para que oigas aullar
al perro asirio.


Uma das melhores cenas do Last Tango in Paris (aaaaaaaamo os globos, os veiacos dançando ao som do Gato Barbieri e a tomada em círculo):
http://www.youtube.com/watch?v=qX_4A6d_Q-U

Esse poema me lembra a obra "Triângulo Metafísico" (1958) do Di Chirico. Mas eu não vou "ponhá o quadro dele não no meu bróguissu. Vô ponhá a Dora Maar prusquê ela é linda e o brógui é meu eu eu ponho o que eu querê cacete!. E por favor, pega lá um Alegra na farmácia porque eu tô quase morrendo de rinite!!!!"

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Y así medio bailando, medio volando...

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Tango.
Quando a confusão mental se instaura diante de milhares de possibilidades, daí a trilha do meu momento é tango. Meu Deus, mas são tantas portas que eu nem sei quais abrir!!! (- Vem cá: mas pode abrir mais de uma porta?).
I don´t know, muchas escojas... Son largos los caminos e eu só sei mesmo que tango é drama puro e como é bom ser dramáááááááático!
Sabe, hoje me toquei que prefiro ser assim estragada mesmo, prefiro toda essa dramaticidade carregada ao invés da coisa morna.
É assim que hoje um amigo me definiu e que me defino eumyselfmesma também: sou drama puro. Organicamente dramática, do dedão do pé direito aos rins e vasos linfáticos.

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Ortega y Gasset vai bem agora, purão, sem gelo, caubói mesmo:
O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que nos encontramos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a escolher.

Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo.

As circunstâncias são o dilema, sempre novo...

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Ogunhê

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Até que um dia um homem saía para o mundo "para ver se é verdade". Antes de morrer, um homem precisa saber se é verdade. Um dia enfim um homem tem que sair em busca do lugar comum de um homem. Então um dia o homem freta o seu navio. E, de madrugada, parte.
(Clarice em "A maçã no escuro")

(Fótia da Grá) - Muié tarada por pés!!!!! Hehehehehehehe!


Continua valendo...

Há certos dias que nascem
como quem nasce da placenta da mãe.
E presta atenção no que eu vou te dizer:
nascer da placenta é algo muito sério!!!!
Eu nasci da placenta,
filha de Oduduá e Iemanjá:
tenho Jorge no couro,
tenho Jorge correndo nas veias.

Eu venço o combate porque nasci da placenta.
"Ogun Mejê Mejê Lodê Iré".
Nasci toda bonita:
nem precisei de coroa de contas de vidro ornada de missangas
porque minha realeza está no que há de terra,
sal, concha,
quente da superfície que banha meus pés de marrom.

Tenho contas azuis dentro do peito
e Ogum abre meus caminhos.

Salve Jorge!
Mas eu bem sei que Beji e Bejada vivem aqui dentro
desde que nasci da placenta.
Ogum me guia,
Ibeji-criança é o que reside em mim.
Essa dualidade grande é da natureza descarnada
que não é porra nenhuma desprendida:
essa - inevitável dizê-lo -soy yo.

(Morro Vermelho - Segall - 1926) - Amooooooooooo!!!!!

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A mulher de todos

Semana passada tive a grande felicidade de assistir ao festival de Cinema de Ouro Preto. Muito bem organizado e com produções de qualidade, inclusive o "Satori Uso", do Grota. Aliás Rodrigo mizifi, que demais estava o cenário: teu filme foi exibido às 19h e pouco, luzes acesas na praça Tiradentes, o sino da Igreja de São Francisco de Assis tocando enquanto a tua película rodava. Algo doido, psicodélico, algo de surpresa como essas coisas de Pedro Páramo, Macunaíma e Bergman!
Do caralho mesmo, você ia amar, pena que não deu pra sua pessoa ir!!!!!

Agora o que realmente me arrebatou foi "A Mulher de Todos" (1969), primeiro filme de Rogério Sganzerla depois do impactante "O Bandido da Luz Vermelha" (1968). O roteiro é baseado no texto de Egídio Eccio.

Para iniciar esse texto eu achei legal comungar do sentimento que Daniel Caetano (http://www.contracampo.com.br/30/mulherdetodos.htm) teve em sua leitura sobre o filme com título homônimo ao meu. Sua primeira impressão:

Por me propor a escrever sobre A Mulher de Todos, decidi rever mais uma vez o filme. E aí cheguei a pensar em algumas coisas esparsas a desenvolver. Mas um grande, sonoro e caudaloso palavrão talvez desse conta de todo o sentimento que as palavrinhas tentariam organizar a partir do filme. Então, fica o registro:
— Puta que pariu!!!!!!!
Será este o filme nacional do século 21? Do 16 ou do 21?


Faço minhas as tuas palavras Daniel: "Puta que pariu!!!!!"

Como referência vou citar trechos do Daniel e do excelente artigo do Leonardo Bonfim presente na revista virtual "The Freakium": (www.freakium.com/edicao5_mulherdetodos.htm) . Aliás, estes dois textos que cito são uma das melhores críticas de cinema que andei lendo nos últimos tempos.

Leonardo abre sua análise esclarecendo: "Antes de qualquer coisa gostaria de deixar bem claro que isto não é uma matéria, e sim uma declaração de amor".

Porra Leonardo, tive a mesma sensação ao assistir ao filme. Eu simplesmente caí de amores por Ângela Carne e Osso. Fiquei encantanda, doida mesmo!!! Sabe quando a gente sai do cinema dizendo: "Caraaaalho!!!". Nem quis assistir ao filme que vinha na sequência no Festival.

Definindo, "A Mulher de Todos" é um filme muito meu. "Meu" porque Helena Ignez interpretou Ângela Carne e Osso de um modo sublime. Eis uma anti-heróina, alguém a frente de seu tempo. Ou, como diz o Leonardo, "é uma mulher que, mesmo no novo milênio, nunca aconteceu". Adorei a reflexão dele: "Nenhuma mulher até hoje conseguiu ser Ângela Carne e Osso por mais de quinze minutos". Só que eu vou além e ouso dizer que ela é a mulher que deixo guardada quieta e calada dentro, mas que pode explodir a qualquer minuto sem que consiga controlar ou dominar os instintos que nos fazem "tudoédivinomaravilhoso" (dá pra perceber que escuto a Gal enquanto escrevo).

Pois bem, logo no início do filme eu entrei no "plasma do mistério", só para plagiar a Claricemeuamor!, em especial devido à atmosfera propicidada pelo estilo 35mm, pb e pelo jogo de filtros que envolvem os espectadores retrôs como yo. Ângela é a mulher que todas querem ser: livre. "A inimiga número um dos homens" centra o olhar irresistível à câmera e, com uma faca por entre os dentes, solta seu sensacional mote: "Nós não gostamos de gente!".

Outra frase que achei superrrrr e que até já adotei como mote: "Eu agora vou me dedicar aos boçais. Homem bacana só dá trabalho" Hahahahahahahaha! Genial, genial, genial!!!!

Ângela, "a rainha dos boçais", "vampira tresloucada", "bêbada", "drogada", "histérica", "ninfomaníaca", que canta Noel Rosa "Ah! Que mulher indigesta, merece um tijolo na testa"!!! Genial!

A grande anti-heroína ainda tenta se defender: "Dizem que sou louca, histérica. Mas eu sou uma mulher normal!". O pior é que toda mulher é histérica, como dizem meus amigos Freud, Breton e Dalí. E eles estão certos até o último fio de cabelo! Hahahahaha! Ângela Carne e Osso, de biquini, semi-nua se requebrando enquanto rola rock e Gal na vitrola (por isso estou ouvindo Gal 60/70´s). Ângela, aquela que chega a enfiar uma agulha num de seus inúmeros amantes e em seguida nela mesma... A própria Helena Ignez, em entrevista ao Pasquim (edição n.33, 5-11 de fevereiro de 1970. Vale a pena conferir!!!! Excelente!!!!) assume o clima de libertinagem do filme: "E eu tive essa possibilidade, uma liberdade incrível de fazer diabos, misérias".

Concordo plenamente com o que o Daniel diz em seu artigo e assino em baixo: "Helena é como Garbo, como Lilian Gish, como Bardot jovem, como Deneuve, uma das mais magnéticas presenças já descobertas a vinte e quatro quadros por segundo e também uma atriz excepcional, e o filme é o filme de um homem apaixonado". Pudera: o diretor Rogério Sgarzela é seu companheiro.

Daniel prossegue seu pensamento: "Apaixonado como o corno boçal Plirtz, o mais boçal de todos, o magnata do cartel dos quadrinhos desconfia que Ângela está lhe traindo, e até contrata um detetive para seguir a esposa. Com quem ela lhe trai? Ora, compadre, procura uma lista telefônica... Também, um cara que tem tesão em ser chamado de bitolado, quer o quê, mané? Até o detetive cai de quatro e entra na roda!".

Olha, para entender o filme é preciso, antes de tudo, entrar no clima de Ângela e dar anteção á sua pergunta essencial: "O que você vai fazer no final de semana? Já foi à Ilha dos Prazeres?".

A estratégia da Ilha dos Prazeres é maravilhosa, senti como se Sganzerla dialogasse diretamente com Felinni em "8 ½". Cenário este muito propício à manifestação dos mais incríveis personagens, que me deixaram completamente extasiada: Doktor Plirtz, marido de Ângela, um magnata bitolado e nazista (olha aí o Sganzerla tirando os militares imbecis!) vivido por Jô Soares; o único milionário negro brasileiro encenado por Antônio Pitanga (outra crítica do caralho! Hahahaha! Amei!); o casal barango de São Paulo que polui a praia ("Bem, compra uma Cuba!"); e o toureiro gay assaltado por Ângela e que a mim me soou como um dos momentos mais cômicos do cinema nacional. Quando percebe que foi roubado e não terá como pagar seu curso de cabelelllleiro (como diz uma amiga!), desespera-se, desmunheca e xinga mais do que eu quando lasco o pé na quina da cadeira!

Ângela é tão absoluta que até mesmo seu fim é genial: "Sou um demônio anti-ocidental, eu cheguei antes!". E para finalizar, vou citar o último parágrafo do Leonardo, que fala com lucidez: "O impacto de uma vampira heróica como Ângela Carne e Osso fica restrito a poucos pesquisadores e curiosos. Se não fosse por isso, o Brasil inteiro já estaria a seus pés".

Eu estou a seus pés Ângela. Completamente.

E sabe que após assistir ao filme eu elegi como nossa música (minha e de Ângela Carne e Osso) "Tigresa", cantada pela Gal, é lógico (alguma dúvida?):

Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel

Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin’ Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor

Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão

As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento


 

Mortos que voam para trás

É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás).




Depois do horror do caso do assassinato de Marcos Paulo da Silva, David Florêncio da Silva e Wellington Gonzaga Costa pelos 11 membros do Exército encarregados de “proteger” os moradores do Morro da Providência, fiquei pensando no que escrever...
É, porque diante de um absurdo como o do referido episódio a gente fica sem saber o que falar... Eu estava relendo o “Poema Sujo”, do Ferreira Gullar e achei que o trecho acima descreve com propriedade o escândalo das mortes.

O Suassuna deu título a um livro que eu invejo: “Poemas com Mote Alheio”. Eu invejo porque isso de pensar algo com o mote alheio é um recurso ultra empregado pela minha modesta (porém limpinha) pessoa. Diante da perplexidade da covardia dos soldados, eu acredito que talvez algo que explique o inexplicável da situação seja isso de visual do poema, do quase cinematográfico do poema: as velocidades diferentes que movem uma cidade...

Certamente enquanto os três jovens, negros, pobres eram mortos, alguém, na mesma cidade, assava um bolo; pintava as unhas das mãos de esmalte “Areia” número 35; lavava o banco traseiro do carro; aguava samambaias; traía o marido em um motel cheio de espelhos; comprava lapiseira, esquadro e borracha ao filho; pegava carona ao treino de futebol; estudava para a prova de álgebra; comprava pão francês, presunto e queijo na padaria da esquina; lia a última fofoca sobre a separação da atriz da novela das oito; pedia um pingado, “mais escurinho do que claro”. Simultaneamente vivemos na mesma cidade, no mesmo país, mas o que ocorre é que estamos tão absortos em nossos próprios umbigos que não comungamos mais do que um espaço físico.

Três jovens, negros e pobres, encontrados no dia 14 de junho no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada. David (24), Wellington (19) e Marcos (17) exibiam escoriações, mutilações e demais marcas de tortura. O Comando Militar do Leste (CML) informou que os rapazes foram detidos porque “desacataram” os soldados. Agora espera aí: que tipo de “desacato” três jovens negros, pobres, poderiam ter feito a brutamontes armados e fardados? Já não é “desacato” suficiente ter nascido num lugar pobre, com falta de saneamento básico, falta de educação, falta de perspectiva profissional? Não paro de visualizar a cena: imagine só, três jovens magros, negros, pobres, no morro. Sim, provavelmente eles deviam estar de chinelão imitation Havaianas (porque hoje em dia Havaianas é coisa cara, virou marca. Eu mesma tenho uma imitation que comprei no Méier por R$ 3,49). Tá, imagino os caras de chinelo, shorts, roupas leves e simples, pois estamos no Rio, é quente e além disso os rapazes são uns duros. Três pobres, pretos, de sandália imitation Havaianas “desacatam” homens armados do Exército.

Mas que tipo de “desacato” pode ter acontecido?

Não, não pára de entrar na minha cabeça o filme horrendo: e, com o momento da câmera em lentidão projeto a cena: a covardia se instaura. Quando estava em Dubai comprei o Corão em versão espanhol. Leia-se: “A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro”.

Três jovens entregues à favela rival como carne jogada a bichos famintos pelo próprio Exército?
Três jovens de chinelo imitation Havaianas entregues como carne?

Hoje li o artigo “O impensável”, da psicanalista Maria Rita Kehl, na Folha de S. Paulo e não pude discordar de seu pensamento. Porque não foi um artigo defendendo bandeiras, daqueles de tom ufanista, querendo defender uma causa pela “paz” e essas baboseiras que a zona sul inventa para amenizar. Ela escreve algo muito honesto: “Quando membros corruptos da PM carioca mataram a esmo 30 cidadãos em Queimados, houve um pequeno protesto em Nova Iguaçu. Cem pessoas nas ruas, familiares dos mortos, nada mais. Nenhum grupo pela paz foi até lá. Nenhuma Viva Rio reuniu gente de branco a marchar em Ipanema. Ninguém gritou ‘basta!’ na zona sul. Não é a mesma cidade, o mesmo país. Não nos identificamos com os absurdos que acontecem com eles”.

Só que eu me identifiquei com o absurdo sim. Enquanto tentava escrever esse texto que tá truncado, ruim, que não se desenvolve pelo absurdo da situação e pelo absurdo que me impede de articular com propriedade uma lógica para algo que não tem lógica, lá vem o meu mano Lu e me diz: “Você ficou sabendo do cara que foi morto num cyber café em Londrina por uns malacos que se recusaram a pagar um real pelo uso das máquinas?”.

Espera. Eu me identifico sim. Identifico-me porque o cara morto poderia ser meu irmão. Identifico-me porque dias atrás fiquei ouvindo uma masturbation mental em uma rodinha sobre a violência, “está feio o negócio!”, é preciso fechar a janela do carro porque “esse povo que vende bala na JK é tudo bandido”... Eu já não sei mais como agir... Todos se trancando em seus muros enormes, todos se defendendo uns dos outros – uns entregues como carne de segunda; outros mortos por um real; outros ainda preocupados em comprar um ar-condicionado porque o verão vem aí e é preciso trancar a janela, trancar as portas.

Caralho! Que é que se faz? Não tem como não usar como mote um trecho do livro “Isto é um homem?”, de Primo Levi, escrito durante sua passagem em campo de concentração:

Isto é o inferno. Hoje, em nosso tempo, o inferno pode assim ser descrito: uma sala grande e vazia, com alguns homens cansados, obrigados a ficar em pé. Nela há uma torneira que goteja, mas de sua água não se bebe, e ficamos aguardando por algo realmente terrível, porém nada ocorre. Que pensar?
Já não se pode pensar, é como se estivéssemos mortos. Alguns se sentam no chão. O tempo transcorre gota a gota.

Eu não sei o que pensar... Nem o que escrever. Eu não sei escrever sobre absurdos. Eu não sei escrever sobre os “mortos que voam para trás” nem mesmo com mote alheio.


* * *

APÊNDICE (texto de André Naddeo - BOL)

Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, era o mais novo dos jovens assassinados. E o que tem a história mais irônica: seu sonho, desde garoto, foi ingressar no Exército. "Ele sonhava em fazer logo 18 anos para poder se alistar, ele queria usar farda e tudo o mais", relembra a mãe, Maria de Fátima Barbosa, 48, agora indignada ao ver que, supostamente, seu filho foi levado justamente por militares e entregue a uma facção criminosa. Desde cedo, para seu próprio sustento e dos seus outros seis irmãos, ajudava a mãe descarregando caminhões de areia em obras dentro da própria comunidade da Providência. "Ele arrumava um dinheirinho com isso, né. A gente não tinha dinheiro, sempre passamos por bastante dificuldade", conta.


 

Salve José Clementino Bispo dos Santos!!!

Cântico à natureza
Jamelão
(Composição: Nelson Matos/ José Bispo/ A. Lourenço)

Brilha no céu o astro rei com fulguração
abrasando a terra anunciando o verão
outono estação singela e pura
é a pujança da natura
dando frutos em profusão

Inverno, chuva, geada e garoa
molhando a terra preciosa e tão boa
desponta a primavera triunfal
são as estações do ano
num desfile magistral

A primavera matizada e viçosa
pontilhada de amores
engalanada, majestosa
desabrocham as flores
nos campos, nos jardins e nos quintais
a primavera é a estação dos vegetais

Oh! primavera adorada
inspiradora de amores
Oh! primavera idolatrada
sublime estação das flores




http://br.youtube.com/watch?v=xZWYaLFP1aU&feature=related


 

Nadja

Quem sou eu? Se pudesse metaforizar esta questão, talvez seria com algo como "a quem assusto?". Devo admitir que esta palavra realmente pode soar confusa, tendendo a permanecer entre as relações pessoais com certos seres que a mim me parecem tão estranhos, tão apegados à minha existência, inquietando meu espírito. Sim, o significado desta palavra vai muito além do que se revela à superfície. Por isto mesmo, ela, a palavra viva, não me oferece alternativas a não ser viver em estado de enigma, de modo que eu necessito "não ser" para poder, de fato, ser. E por mais distorcida que tal idéia se demonstre, a palavra... ah! a palavra sugere que aquilo que eu considero objetivo delibera que as manifestações de minha existência são meramente premissas, e, com os limites desta existência, manifesta-se uma ação cuja verdade é completamente desconhecida.
(Versão própria do primeiro parágrafo de Nadja, de Breton, 1928. Fonte: da trad. em inglês de Richard Howard)



 

Infância


Meninos em curral de gado no Brasil
(Fonte: hormoniosas.blogspot.com)


Menina no Timor
(Fonte: populo.weblog.com.pt)


Mãos...
(Fonte: www.anda.ca/fotos/2007/01/147647.jpg)


Serra Leoa
(Fonte: www.viomundo.com.br)


[...] um primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia uma vida...
(Clarice Lispector em "A Paixão segundo GH")


 

A Capadócia mora em mim

Tendo lido várias versões sobre a história do meu Jorje, Ogunzão que me abre os caminhos, bem, a mais notória é que ele foi um sorrrrdado lá pras bandas de Roma que não quis negar sua vida cristã.

Após a morte do pai, mudou-se da Capadócia (Turquia) à Palestina, terra de sua mãe. Ocupou altas posições no exército romano. Foi decapitado na perseguição do Imperador Diocleciano, no ano 308, na Palestina. Isto porque o meu Santo converteu Alessandra, a esposa do Imperador. Quando ela recebeu o batismo, Jorge foi degolado. Das ist kaput!

Existe todo um simbolismo envolto no martírio de Jorge. Venceu o Dragão de Silene na Líbia com sua lança, salvando a vida da filha do imperador. Sua sepultura encontra-se na cidade de Lídia, na Palestina.

No século XII, a arte, literatura e religiosa popular representam São Jorge, como o soldado das Cruzadas, com manto e armadura com cruz vermelha, ereto sobre um cavalo branco, com lança em punho, vencendo um dragão. Ou, em outras palavras, Jorge é o cavaleiro da Cruz que derrota o dragão da maldade.



É engraçado que há vários séculos há peregrinações ao túmulo do meu Jorge. Seu santuário já foi destruído e reconstruído uins paaaaarrrrr di veiz durante a história. Santo Estevão, rei da Hungria, reconstruiu esse santuário no século XI. Foi o Papa Bento XIV (1740-1758) que fez São Jorge, padroeiro da Inglaterra até hoje. Em 1420, o rei húngaro, Frederico III (1534) evoca-o para lutar contra os turcos. Olha só a ironia: Jorge é, de fato, turco!!!

Mas é preciso deixar arrrrrgo bem craro! Ou como diz meu padrinho querido: "Broco é broco e crube é crube". A alegoria Ocidental de Jorge como guerreiro, padroeiro dos cavaleiros da Cruz e das ordens de cavalaria para libertar todo país dominado e para converter o povo no cristianismo é simples: ele mata um dragão. Expricaçãozis: os gregos começaram a representá-lo assim. O dragão simboliza a idolatria que ele enfrentou com as armas da Fé, e a donzela que o Santo defende representa a província da qual ele extirpou as heresias. A ata laudatória dos feitos dos mártires (Passio), que narra a vida de Jorge, é bem antiga e contém elementos legendários. Segundo sua primeira redação, Jorge era originário da Capadócia (região da atual Turquia).

Mas um dos fatores que mais me agradam em Jorge é que além da crença cristã, ele também está presente na Umbanda, representado por Ogum. E Ogum, vejam só que coincidência, é meu Orixá! Sabia disso antes de ter essa veneração toda por Jorge!
Jorge é lindo porque Jorge, antes de qualquer coisa, é Brasil!

Amo Jorge com todas as minhas forças! Quando estive na Capadócia senti a maior emoção de toda minha vida! Eu, Jue e Rajaiea... A melhor viagem, a melhor... Foi algo surreal, mágico, sem explicações... Nós três explorando todas aquelas ruínas que serviam de esconderijo para os cristãos nas perseguições! Eu me arrepio com todo aquele cenário até hoje. Ai que saudades daqueles dias de frio, sol e felicidade, mochila nas costas, pouca comida, pouca vaidade, algo forte de espiritualidade... Nós três, andando por aquelas estradas sem fim!

Foi a partir daí que comecei a ter essa grande devoção por Jorge, o meu santo protetor. Ele está sempre sempre sempre ao meu lado. Amo Jorge, creio em Jorge, meu Ogum, e que ele teça meu caminho, sempre.

Meu caminho está nas mãos ceifadas de Jorge.
Mas "quem me levará sou eu", como diz aquela cançãããã do Dominguinhos e do Manduka.

Eu e Jorge.

Hoje tava prolixa, mas tudo bem, eu sou prolixa.

E agora com licença porque eu vou trabalhar.


 

Pedro Páramo

Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo.
(Juan Rulfo)



 

100% Paraíba

Quem usa do rótulo preconceituoso de "paraíba" para o brega, o pobre e o popular não conhece a Paraíba. Nunca nem passou por perto...
Isso aqui é coisa linda. Aqui é minha segunda casa.
Eu tenho muito orgulho de ter metade do meu sangue paraibano, de ter pai paraibano, de ter família paraibana...
E para quem já vulgarizou o adjetivo "paraíba" com significado pejorativo, vai aí um recado: Suassuna é "paraíba", Augusto dos Anjos é "paraíba", Jackson do Pandeiro é "paraíba", José Américo de Almeida é "paraíba"... Paraíba como tantos outros. Paraíba como o João Gago, figura mítica viva que faz parte do folclore de Santo André. O João Gago é um senhor gago (por supuesto! Hehehe!), banguela, que usa várias correntes de ferro no pescoço e tem o engraçado hábito de roubar calcinhas do varal da mulherada de Santo André. João Gago é figura que vai sempre alegrar a minha vida.
Eu também sou "paraíba".
Que bom que vou ficar duas semanas aqui!!! Eu amo essa terra!!! Enquanto tá todo mundo aí no frio eu tô aqui de xórtiiis, curtindo a brisa do mar... Mas tô estudando, lógico...
E como parte dos estudos, achei legal umas curiosidades sobre a antiga Revista Illustrada e sobre o Angelo Agostini, grande caricaturista da época. Italiano, chegou ao Brasil em 1859, fixando-se em São Paulo, onde, em 1864, deu início à sua carreira, publicando seus primeiros trabalhos em O Diabo Coxo. E que nome do caralho esse!!! Fantástico! Por bem dizer, eu adoro os nomes das revistas antigas: O Diabo Coxo é campeão!!! Mas tem também O Mequetrefe, O Mosquito, O Besouro, O Malho... Quanta originalidade! E quanto humor!!!
Mas, porém, contudo, todavia, eu curto pra caralho (Nossa! Que boca suja! Quanto caralho!) o trabalho do LAN ( LANFRANCO VASELLI ). Italiano criado no Uruguai, estudou arquitetura e iniciou sua carreira jornalística nas páginas do matutino El País. Contratado pela imprensa argentina em 1948, lá ficou até 1952. No mesmo ano, de passagem pelo Rio de Janeiro, foi convidado por Samuel Weiman a inaugurar o "Última Hora" paulista. Seis meses depois veio em definitivo para o Rio, onde trabalhou na edição carioca da U.H., Flan, O Globo, Manchete Esportiva, Correio da Manhã, etc. etc. e tal. EM 1963 passou a ser chargista excruzivus do JB.
Entãocis, gosto do LAN pela sensibilidade crítica dele. Eis uma de suas charges excelentes:



Então tá, agora termino porque hoje falei, falei, falei e falei e caí no nada. Como sempre. Pra não perder o costume. Verborréia.




 

Maracatu Estrela de Ouro (PE)

"Vim pra sambar bonito
Vim dar toque do apito
Por que se eu não sambar
Que será de mim?"



www.estreladeouro.org

Coisa mais linda!!!


 

Quem vem lá? Se é de samba pode se chegar...

O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto.
(A física do susto - Cassiano Ricardo)


A vida é tudo o que tenho.
A vida e somente a vida.
É sobre ela que estou
construindo a minha obra
(Vicente do Rego Monteiro)

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Vicente do Rego Monteiro, ilustração para Légendes, Croyances, et Talismans des Indiens de l'Amazone (Paris, 1923).

Existe um abismo entre a lágrima e a sua ausência.
Por isso há os que choram,
os que esperam a beira do caminho
e os que cruzam horizontes em busca da brisa.
(Um certo sertão - Celso Brito)


E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.
(O Guesa / Canto terceiro - Sousândrade)

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(Gaudí)

Vejamos os meus últimos registros: Sábado pintei um retrato de mulher, cuja boca escancarada poderia lembrar um grito. Não o famoso grito do pintor nórdico Edward Munch, mas de alguém abrindo a boca, deixando escapar uma enorme língua serpentina que ninguém adivinha se está saindo ou retornando goela a dentro. Na noite de ontem, fui colecionando palavras num estado de semi-vigília e o resultado foi o seguinte: As coisas já não são as mesmas/ Uma fratura na alma/ É melhor limpar agora/ Um pálido cinzento da cinza/O rosado de uma rosa morta/ Ser um punhal/ Bem como a ferida/ Eu queria a escuridão/Aqui ela está.
(Fragmento do diário de Brennand - 19 de maio de 1997)

Meu ser evaporei na linda insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
(Meu ser evaporei na linda insana - Bocage)

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Composição sobre tela (Cícero Dias)

estou enlouquecida
pelas ruas que se cruzam no abismo,
pelos joelhos fraturados do tempo,
pelas margens do rio sem peixes,
pela verde angústia das folhas
e pela lua que sai de teus dedos.
(Haydée Sorensen )


E pra fechar, Zé Limeira:

Maihó de que Jesus Cristo
Foi o Pai do velho Adão.
Com medo de Satanás
Fez o Sino Salomão.
Quage ficou cadavérico...
Malhó mais é Zé Américo
Que não morreu do avião.


 

Banheiro público

Excelente pra quem quiser versão online de dicionário. Basta ir ao link abaixo:

http://www.ieb.usp.br/online/

O dicionário do IEB da USP está fantástico. São oito volumes que compõem a obra, publicados ao longo de nove anos: volumes I e II, em 1712; III e IV, em 1713; volume V, em 1716, volumes VI e VII, em 1720 e o volume VIII, em 1721. Aos 8 volumes juntaram-se outros dois de suplementos publicados entre 1727 e 1728, contendo mais de cinco mil vocábulos que não constavam nos volumes anteriores.
Trata-se de um dicionário fascinante porque, além de ser totalmente acessível, eis o compêndio do mais puro creme do milho verde da língua portuguesa. É coisa de raiz mesmo, dicionário não só etimológico - sobretudo trata da essência do idioma português, tão maltratado atualmente... Só para constar um exemplo nos anais, quinta-feira estava linda e formosa vindo pra UEM quando paro no sinal atrás de um caminhão. O que estava escrito na carroceria? "Faiz fletes". Sem brincadeira!!! O cara se superou!!! Mas também, a língua não permanece intacta, afinal é resíduo da condição sócio-econômica-cultural-blá-blá-blá da fala, né meu nego?



E agora uma frase horrível que encontrei na porta do banheiro feminino do prédio da Letras na USP mês passado: "A diferenca entre cagar e dar o cu é meramente vetorial". Aiaiai!!!


 
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